segunda-feira, 7 de maio de 2007

O Mundo de Sofia

Ainda não assisti ao filme que abriu a temporada de Blockbusters, e que tomou de assalto –quase- todas as salas de cinema de São Paulo (e do Brasil). Pretendo assistir “Homem Aranha 3” depois, não tenho tanta pressa. Portanto irei comentar outros filmes que possuem pouco tempo de vida útil nas telonas, mas que ainda podem ser conferidos. Como o caso de “Maria Antonieta”, que ainda está em cartaz em três salas da cidade.

Feminices

Ela nasceu em berço de ouro. No ciclo hereditário, tudo pode através do poder hierárquico que seu nome carrega. Mas ao mesmo tempo carrega um fardo enorme nas costas, já que assumiu uma posição perigosa. Muitos a consideram jovem demais para assumir os riscos em administrar o nome da família tão precocemente. Para ela nem tanto, parece ser uma outsider.


Ela, Sofia, carrega este fardo, que é fazer parte do clã Coppola, sendo filha de Francis Ford. E como se não bastasse, optou pela mesma carreira do pai, e tornou-se diretora de filmes. E é em seu terceiro longa que parece assumir tais responsabilidades com ironia e certa rebeldia. Uma rebeldia que paira uma adolescente que se tornou rainha ainda muito imatura. Com “Maria Antonieta”, Sofia parece fazer seu filme mais autobiográfico. O faz com maturidade artística, é verdade, embora seja como um todo irregular. Em diversos momentos as pretensões artísticas soam além da medida, e Sofia parece (re)afirmar a todo o momento um feminismo aos moldes de “Saia Justa”.


Veja bem, não estou criticando o programa da GNT, mas sim algumas de suas apresentadoras que já passaram por lá, e que não acrescentaram muito a discussão, pelo contrário, apenas a polemizavam, em certas ocasiões, em um contexto que fugia da proposta do programa. E o que me incomodou um bocado no filme de Sofia fora a tal pretensão da diretora. Primeiramente, a cena com o tênis AllStar jogado no canto da tela, junto com os sapatos da rainha, parece metáfora muito frágil se compararmos com o restante do desenvolvimento narrativo. Em se tratando de Sofia, a incurssão pop contemporânea não faz jus a sua delicadeza que ponderou seus trabalhos anteriores. E mais ainda, pode-se traçar uma metáfora além da obviedade sugestiva em um ambiente atemporal; há a possibilidade que o elemento contemporâneo se torne mais autobiográfico que Sofia possa ter planejado, o que nos faz voltar à discussão do fardo que esta carrega.


O filme também me pareceu muito longo. O que não considero um fator negativo, mas nesse caso as repetições de cenas e idéias são cansativas e não acrescentam muito à narrativa. Vide “Encontros e Desencontros”, por exemplo, onde a narrativa introspectiva e lenta não atrapalha de maneira alguma o resultado final, ou melhor, é o que pontua o filme ao ser bem trabalhado esses tempos e silêncios. E falando em trabalhos anteriores, até mesmo Kirsten Dunst diz preferir “As Virgens Suicidas” (primeiro filme de Sofia, e que também contava com Kirsten como protagonista), apesar de defender o atual trabalho da diretora (e dela).


Cannes e a repercussão em torno do filme foram um grande favor à Sofia e seu “Maria Antonieta”. Este quase foi lançado diretamente em dvd aqui no Brasil graças a má reputação que vinha recebendo mundo afora, porém o público conseguiu depois de meses o lançamento nacional do novo Sofia. Foi vaiado em Cannes, chegou com muitas ressalvas e a expectativa foi invertida, convertendo as críticas em propaganda. Fez razoável sucesso por aqui, já que o público pode conferir que o filme não é ruim, pelo contrário, é interessante, corajoso e, conseqüentemente, bom. Mas muitas vezes apenas ser bom não é tão interessante, ainda mais tendo em vista a pretensão que o envolve.


Porém em “Maria Antonieta” há também muito talento artístico, como o figurino, a direção de arte e as atuações, mas é uma pena que um filme que poderia ter dado tão certo, se fragilize por uma rebeldia mal trabalhada. Fui aos cinemas exatamente para conferir os porquês das críticas negativas que a cercavam, e ainda assim estava otimista com minhas expectativas, já que admiro sua (curta) filmografia. A conclusão que tirei é a de que trata-se de um bom filme, mas longe de ser uma grande Sofia.

Nenhum comentário: