segunda-feira, 28 de maio de 2007

a incrível jornada

Resgatando um assunto recente. Gillermo Arriaga e Alejandro González Iñarritú depois de três filmes em conjunto ("Amores Brutos", "21 Gramas" e "Babel") brigaram e dizem nunca mais voltarem a acordo comum. Qual a razão desse post? Ontem (sábado) assisti pela terceira vez, "Três Entrerros", o primeiro filme de Tommy Lee Jones, na direção. E o que isso tem a vem com o começo do post? Simples, hoje abri o jornal e lá encontrava uma bela matéria com Guillermo Arriaga e seu novo livro, "Um Doce Aroma da Morte".

Certo... Arriaga, Tommy Lee, livros...? Ah sim, o roteirista do filme de Tommy Lee Jones, é o próprio Guillermo Arriaga. E, por coincidência, um dia depois de rever seu filme, uma matéria com o escritor/roteirista/mexicano é publicada.

Seu novo livro trata, dentre tantas outras coisas, da morte. Arriaga não é necrófilo nem saudosista, apenas enxerga a vida por um outro prisma do otimismo. Diz valorizar a vida através de fatos que sempre fugimos quando estamos vivos. A morte é presente em sua obra. Tanto nos três filmes que fez em parecira com Iñarritú, "Búfalo da Noite" (sua anterior obra literária, que ganha adaptação para as telonas esse ano, com Diego Luna), e em "Três Enterros", Arriaga discute a vida pela relação amedrontadora que temos desse rito. O filme de Tommy Lee Jones é uma obra-prima do cinema recente. É dividido em quatro partes. O primeiro e o segundo enterro, a viagem e o último enterro (de Melquiades Estrada). Lee Jones filma como um veterano, e seu filme é construído pelos ruídos, silêncios e as lacunas que o roteiro tange maravilhosamente bem. Tem o estilo europeu de filmar, com fluidez natural de narrativa apresentando poucos sons extra-diegéticos. A edição é excelente, mas sabendo de quem se trata o roteiro, essa visão parece muito mais do roteirista que do editor.

Por outro prisma, pode ser analisado como um road-movie sobre vingança e redenção. É mais que isso, possui crítica fortíssima para com a maneira com que os norte-americanos enxergam os mexicanos, através de uma fronteira física ridícula e preconceituosa. Tommy Lee está grande em seu filme, além de dirigir, também atua. E o faz com os méritos que sua carreira colheu. Foi reconhecido e venceu como melhor ator em Cannes, na ocasião. Há também a grande presença de Barry Pepper, demonstrando, mais uma vez, o excelente ator que é.

Dentre as figuras interessantíssimas que atravessam o caminho durante a projeção, vale destacar a sublime aparição do velho Levon Helm, o senhor cego de fala característica que pontua a estética e filosofia do filme, numa visão menos obtusa dentre o bem e o mal.

Fez sucesso em Cannes e conquistou a crítica especializada. Muitas vezes é pura fantasia. Nesse caso, não. São méritos próprios. Assista, e comprove a fina carpintaria que é esculpida em toda a obra, nascendo um novo produto de uma era preconceituosamente globalizada.

Voltando a questão de Arriaga, fica a pergunta; quem sairá perdendo com a briga de egos? Arriaga ou Iñarritú? Talvez o segundo. Apesar de grande diretor, o único trabalho de Iñarritú que assisti, sem a participação criativa de Arriaga, fora o segmento mexicano na plural visão da coletânea dos onze curtas-metrangens de diferentes nacionalidades, em "11 de Setembro". E não gostei nada do que vi. Já Arriaga parece ter vida própria além da fronteira México/EUA. Pretende dirigir seus próprios filmes, mais adiante, e, além de tudo, é excelente escritor e possui visão cinematográfica apurada, como seus roteiros comprovam.

Mas de fato, quem deverá sair perdendo com a briga, somos nós cinéfilos.

Torçamos para que nasçam mais "Três Enterros" por aí afora.

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