Goste ou desgoste de "Baixio das Bestas", será difícil sair ileso depois de assistí-lo. O diretor pernambucano Cláudio Assis denuncia diversas questões, e talvez a principal, seja a impunidade. O papel do cinema muitas vezes é o de apontar o dedo para o que está errado. Cláudio o faz, e com a outra mão coloca o dedo na ferida do espectador até doer. Quando está doendo, o diretor aproveita e aperta mais. Quer saber até onde aguentaremos. Ou melhor, até onde ficaremos passíveis ao que acontece em tela. Tela? Cláudio filma a vida real. Por mais travestida que possa parecer, seu cinema é amparado pelo real. O filme é mais atual que nunca. Em tempos de Bush filho e de etanol, o longa apresenta a visão menos romântica e mais crível dessa adesão. Pode parecer apelativa, mas a cena em que o trabalhador torce a cana para que possa saciar dos respingos do sulco é potente, pontua o pensamento de Cláudio. Em certa cena, Matheus Nashtergaele conversando com seus cabras profere, "Sabe qual é a melhor coisa do cinema? [pausa, traga a maconha, encara o público e...] é que no cinema você pode fazer o que tu quer.". Antes de ser acusado, ele acusa. Antes mesmo de se dizer que o filme é perverso, Cláudio já propõe a simbiose, e firma o acordo; todos somos perversos. Mais ainda, pergunta: e você aí sentado, está prestando mesmo a devida atenção no que ocorre? Está tudo bem? Está tudo bom? A partir disso é assumido seu caráter de afronte. Nisso seu cinema me pareceu dialogar com o de Lars Von Trier, e seu apelativo "Dançando no Escuro". Muitos amam essa apelação à violência e a tristeza. Já aqui,
não há pessoas cantando pelas engrenagens dos canaviais. E não há a perda da visão, e sim a perda do sentido. Considero o longa nacional muito mais triste que o de Von Trier. Lá a violência é psicológica e muito bem pensada, e mais importante. Quer a todo custo ser triste e fazer chorar. Aqui é escondida nos cantos de um Brasil que ninguém quer enxergar. A cegueira é social. Um povo fadado à invisibilidade para sempre. E tristemente, têm consciência do fato agindo de tal modo. Não há lágrimas ao final da sessão, é sentido no estômago não na consciência do bem e do mal, claramente definidos.
Em Baixio há sexo, há violência física e psicológica, e também há muita pobreza. Renato Russo já dizia que a ignorância anda de mãos dadas com a maldade. Os personagens masculinos são escrotos, e acima de tudo ignorantes ao máximo. E completando o pensamento, são, portanto, maldosos. A maldade e a perversidade não está apenas contida na riqueza, o filme nos diz. Na pobreza também há ela(s), e em dosagem cavalares. Na cidade inóspita ninguém saberá nunca da existência dos acontecimentos. Ou então, nunca tomarão nota de suas próprias existências. Nem eles, ao que parece, entregando a vida à boemia, putaria e violência. O desmistifica que só há impunidade em classes sociais elevadas pela hierarquia. Somos todos humanos. Portanto, igualmente perversos. Ricos ou pobres.
Os personagens no filme agem por impulso da dominação através da hierarquia de valores, não de classe. Se fossem policiais, políticos, agentes penitenciários, fiscais tomariam as mesmas atitudes, mas em Baixio, o poder não se faz valer pelo valor monetário que pode extorquir, mas pelo poder do culhão, do macho alfa. O pinto duro, pulsante e dominante. Os personagens masculinos aparecem nus com naturalidade. Contrariando o que se vê no cinema. O corpo feminino sempre foi filmado sem muitos pudores. É belo, equilibrado, possui "estética" cinematográfica. Em Baixio os homens podem fazer o que quiserem, até mesmo andarem pelados por todos os cantos. Se há o corpo feminino descoberto, o está também desnudo de moral. Estará jogado a uma única função, a de rebaixamento de valor.
Contanto, depois de tanta frivolidade, crueza e realidade, também há plasticidade. A observação pode ser inapropriada, já que uma coisa não invalida a outra. Mas aqui, Cláudio utiliza de Walter Carvalho (o mestre da fotografia) em prol de uma imagem real "falsamente" crua. Filma em widescreen, e em película. O tema pediria uma obviedade na composição imagética, e obrigaria o diretor a optar por uma imagem mais granulada e um aspecto mais introspectivo de tela para sufocar o espectador. Mas Cláudio faz do aparato sua estética da fome. Não estou elucidando o termo como fora, anteriormente, para criticar o trabalho de Fernando Meirelles em "Cidade de Deus". Aqui, só faço a observação, passível de crítica. Não achei a opção acertada, admito, mas de qualquer forma há o contra ponto da provocação que Cláudio enfatiza em toda sua obra.
Os atores estão excelentes. É o ano de Caio Blat. Com três longas, simultaneamente, em cartaz pela cidade, o ator paulistano se consagra de vez como um dos nomes mais fortes da cinematografia nacional. Mercecidamente. Está muito bem caracterizado em "Batismo de Sangue", excelente em "Proibido Proibir", e impecável em "Baixio das Bestas", como o agroboy que pode ir e vir. Trabalhou em pouco tempo com três diretores de estilo e estética totalmente diferentes. Disse ficar impressionado com o processo de criação de Cláudio Assis. Os caminhos foram sendo moldados nas filmagens e a violência para com as mulheres ganhou mais relevância com o tempo. Matheus, Dira Paes, Hermylla Guedes também estão excelentes, como sempre. Só a última que tem participação reduzida a uma ou duas cenas. E sua última cena é a do estupro. Pode parecer convencional, mas nada mais me impressiona depois de "Irreversível". Apesar de Cláudio utilizar do mesmo recurso do plano-seqüência para filmar a brutalidade, o resultado é menos doloso, e menos (in)crível. Parece poupar um pouco o espectador. E a cena fica com aspecto demasiadamente coreografada e pouco convulsionada se comparado ao longa do argentino Gaspar Noé.
Cláudio Assis fez mais um tratado sobre a impunidade. Será muito fácil ser mal interpretado, seu ode ao (não) manequeísmo poderá sair pela tangente nas críticas pós-obra, podendo elevá-la tanto ao inferno como ao céu. Mas uma coisa é certa. Você, ao assistir o filme, tampouco sairá impune.
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