terça-feira, 15 de maio de 2007

Música em Cena

A palestra de hoje (ontem) foi excelente. Depois de um atraso de meia hora, devido a problemas costumeiros nos Aeroportos do país, Gustavo Santolalla entrou depois de duas vinhetas apresentando o projeto Música em Cena seguido de outra que fazia recortes de todos os filmes para que compôs. Ao começar o debate, Rubens Ewald Filho, o mediador, não teve vergonha do ridículo e fez uma pergunta "a la Caras" (como o mesmo definiu), e indagou como é a sensação ao se ganhar um Oscar. Depois da óbvia resposta, Santaolalla falou, e falou bem.

Ao ser perguntando o quanto de argentino reside em sua pessoa, já que vive mais fora que dentro da terra natal, falou que muito, quase que completamente em razão de suas influências e a maneira como encara a vida. Acredita que a pessoa tem que saber de onde veio, o que é, para assim, ter noção de onde quer chegar, e o porque do objetivo. E terminou a resposta dizendo que, na verdade, se enxerga mais globalmente, e se considera como latino-americano que simplesmente um argentino. Mais uma vez enfatizou sua preferência para as músicas minimalistas para os trabalhos que compõe. Acredita que o público tem que ter oportunidade em respirar por entre as cenas, e o silêncio é extremamente importante em sua composição artística criativa. Muito interessante, mas nessa hora os mais desatentos não perceberam que Santaolalla respondeu mais sobre o que é ser argentino que na pergunta anterior. O cinema argentino possui essas mesmas características que o compositor afirmou ser importante em sua obra.

Comparou como é trabalhar com diretores tão distintos como Alejandro González Iñarritú, Michael Mann, Walter Salles. Iñarritú é perfeccionista, Salles é mais light, como o mesmo definiu, e Mann é introspectivo. Em sua primeira conversa com o americano, sacou o instrumento, tocou, e o diretor ainda em silêncio gostou do resultado. Esperou um tempo e recebeu um cd com algumas músicas compostas. Disse ser uma pena não poder contar com aquelas músicas, já que seriam perfeitas para o filme. Santaolalla adorou, e retrucou, "mas as compus, exatamente, para o filme!". E foi assim que teve participação na trilha de "O Informante". Seu processo criativo varia. Em alguns filmes recebe apenas o script e cria suas músicas a partir da lauda. Em outros, vê o filme pronto ou então, como no caso de "Brokeback Mountain", cria a trilha antes de tudo, para que o diretor possa inspirar os atores para as cenas tocando-as nos sets de filmagem.

Está para lançar mais dois filmes com suas trilhas. O primeiro, já finalizado, é o novo longa de Sean Penn (na direção), "Into The Wild", e o outro é o próximo de Walter Salles com produção de Coppolla, "On The Road". Disse ser muito seletivo em suas escolhas profissionais, e o que o Oscar mudou para ele foram as propostas em número e valor monetário mais largos. Não à toa trabalha com diretores tão notórios. Não pretende entrar na indústria cinematográfica hollywoodyana, por isso mesmo não se sente membro da Academia, mesmo tendo dois Oscars na bagagem.

Além de compositor de trilhas para diversos filmes, é também produtor e toca ao vivo com banda. Banda essa, que se apresentou essa noite na capital paulista. O tal Bajofondo Tangoclub fez sucesso retumbante no Rio de Janeiro, com uma apresentação magnífica, segundo os presentes. Dentre eles, Walter Salles entusiasmado com o companheiro de trilha de "Diários de Motocicleta". No Rio teve participação de Marisa Monte, tocando quatro músicas com a brasileira (disse ter ficado encantado quando a ouviu, ao vivo, pela primeira vez), abertura de Arnaldo Antunes e André Abujanra. Tocou suas trilhas mais famosas em um momento mais solitário e depois dividiu o palco com a banda em uma alquimia que empolgou o público. Prometeu o mesmo para São Paulo. Deve ter sido, realmente, fabuloso.

Ao final da palestra, tocou seus "sucessos". Impressionante! O cara é excelente! Ao vivo é o mesmo que nas telas. A emoção é igual. Quando começou com os primeiros acordes de "Babel" foi de arrepiar, seguido pelo maravilhoso tema de "Brokeback Mountain" e de "Diários de Motocicleta". O público presente adorou, e aplausos calorosos foram a conseqüência. E, claro, além de tudo Santaolalla é extremamente simpático e simples. A fachada de dois Oscars, ou melhor, o deslumbre pelo sucesso muito conhecido por aqui, não faz parte de sua persona. Um grande músico e uma excelente pessoa. O prazer foi todo nosso.

PS: para escrever este post, como inspiração, estou ouvindo a trilha sonora de "Babel". É demais! Recomendo!

Mais Estranho Que A Ficção

Para terminar o dia com uma notícia que espantou-me quando li, é que Lars Von Trier ("Dogville", "Europa", "Manderlay") saiu agora de uma clínica por tratar uma profunda depressão que o fez repensar a carreira. Internado em Copenhague a pouco tempo atrás, disse passar por uma crise criativa gravíssima. Diz se sentir como em uma constante folha em branco para com sua criatividade. Se antes tinha em mente dois ou três projetos sempre afiados, agora nem seu novo longa, a parte final da trilogia que critica os EUA iniciada por "Dogville" e seguida por "Manderlay", deve sair do papel. Disse que será difícil realizá-lo, e mais ainda, voltar a ser diretor de cinema.

Triste para cinéfilos e para a arte em si. Mas mais triste ainda para sua pessoa. Uma pena, tomara que isso passe logo. São, apenas, fases difíceis, acredito.

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