Acabei de assistir a um debate proporcionado pelo canal Futura sobre um assunto seríssimo e pouco explorado não só no Brasil como no mundo, que é células-tronco. Benefícios, eficácia, ética e avanços científicos. Participaram do debate algumas personalidades que não vou lembrar-me seus nomes, mas tratava-se de um cientista, a favor das pesquisas com células-troco, uma pesquisadora da UNESP, radicalmente contra, e uma outra senhora da qual não lembro seu cargo especificadamente, mas que ficava também a favor da pesquisa por outros motivos. E, lógico, no centro da questão, mas não do debate, estava o músico Marcelo Yuka.Vou tentar minimizar e simplificar a questão ao máximo, mesmo que não seja esse intuito da discussão, mas apenas como forma de entrar no assunto. Seguinte: há um bom tempo ocorre esse embate entre a a Igreja e a Ciência em um prisma Ética e a Vida. A ética e a vida nesse ponto assumem caráter ambíguos, estão nos dois lados, mas possuem interpretações completamente opostas. Se por um lado, para os católicos, fazer pesquisa através de células-tronco embrionárias vai contra seus dogmas religiosos, já que essas poderiam gerar uma vida mais adiante, para a ciência não se trata de desperdiçar vidas, mas de utilizar-se de tal meio para facilitar ainda mais a vida de muitas pessoas.
Nisso entra mais um debate proporcionado por personalidades que divergem em suas opiniões. O que mais me espanta é a agressividade com que o assunto é recebido por entidades religiosas. Não se tem um aspecto a ser discutido, mas um ponto conciso em uma opinião intransigente que não enxerga o assunto como uma discussão para esclarecer o assunto, é heresia tentar defender a vida de uma outra forma. Não estou dizendo que, com isso, estou cem por cento ao lado da ciência, mesmo porque acredito que há muita política, dinheiro e jogo de verdade por trás.
A Igreja acredita que estudar as células-tronco embrionárias é mexer com a vida, e não se pode "brincar de Deus". Porém, paradoxalmente, ela mesma entrega uma palavra final à sociedade que tem de aceitar como verdade absoluta. E o brincar de Deus é invertido de papel. Mas também isso não é muito novidade. Essa mesma Entidade já aprovou a escravidão, teve cumplicidade com o Holocausto, acusou, sentenciou e matou milhões e é fervorosamente contra a camisinha, aborto e outras práticas consideradas ilegais e sentenciadas por um Estado que se diz separado da religião, mas que faz por menos, seja pelo descaso ou pela homologação das mesmas crenças que se encontram em uma mesma posição mais a frente em leis e incentivos.
Entremos no ponto chave da discussão. Milhares de pessoas hoje sofrem por estarem a margem da sociedade, seja por conseguir incentivo financeiro ou humano para que possam receber um coração, medula, rim, pulmão, células-tronco e qualquer transplante que o valha. Dentre essas, estão pessoas notórias como os músicos Marcelo Yuka e Herbert Vianna, que podem defender suas posições publicamente. Embora cadeirantes de causas diferentes, defendem mesma posição a favor das pesquisas em prol da vida. Yuka, no debate de hoje, disse certa hora que é irrelevante, hoje em dia, a discussão entre igreja e ciência. Tem de se abrir essa discussão a uma escala maior que concentram seus valores fundamentalistas, não se deve ficar comprimindo o assunto a valores morais e científicos, deve ser muito mais filosófico.
Entra a questão que sempre penso: quem pode/deve decidir o que é bom para a maioria. As leis que regem sobre um Estado são sensíveis ao ponto de entenderem o real valor da vida? O quanto as leis são dignas de suprirem a complexidade da vida em todos as suas variações? O quanto disso é moral, ideológico ou ético?
Para considerar, acredito que a Igreja é uma Entidade falida nos dias de hoje. Tanto por sua posição retrógrada e hipócrita para os acontecimentos no mundo atual. Seus dogmas são arcaicos e medievais. Não estou criticando a fé das pessoas que depositam sobre Ela. Acredito que a fé, realmente, é um elemento indispensável a vida. Mas não acredito nessa fé ministrada por seres humanos que as interpretam e as definem onde outrens deverão concentrá-la. Enfim, para mim, o papa não me emociona, a Igreja é hipócrita e o Estado é o maior criminalista e formador de criminalidade. Não se trata de uma revolta vaga e insconsistente, mas de uma visão realista, e talvez muito ingênua, do que ocorre hoje.
Enquanto discutimos a aprovação de leis, incentivos fiscais e ampliações tributárias, vidas estão jogadas ao descaso de uma democracia deficiente. Está sendo votada, nesses dias, no Congresso, a respeito da maioridade penal. Dentre os votos de diversos político há o assustador índice de 11% favoráveis à pena de morte para crimes hediondos. A pergunta que fica é: com que base e ética essa decisão se torna lícita para tais pessoas?
Enfim, Yuka pontuou o debate não chamando a atenção para si, mas para a vida como um todo. Mais colocou em dúvidas tais filosofias fundamentalistas que as criticou como as mesmas fazem contra posições como as dele. Em certo momento a pesquisadora da UNESP contra a pesquisa de células-tronco disse, "essas pesquisas não estão dando certo. Eu quero é ver o que dá certo, quero ver o que está andando...". Yuka, nesse momento, a interrompeu e disse, "Só sei que quem não está andando aqui, sou eu senhora.". E é exatamente esse ponto. Até quando discutiremos em uma sala fria em papéis sem vida aprovando leis que seguem dogmas e não reconhecem que por trás de toda uma moral infudada há a vida. Pulsante e enfraquecida por uma "maioria". Yuka disse também "e eu que não sou católico? Tenho de ficar a mercê da religião até quando?". Tudo que a Igreja faz, hoje e sempre, para mim será uma das maiores contradições humanas. É a favor da vida. Mas de quem?
Acredito que o Marcelo Yuka seja uma das figuras mais emblemáticas, politizadas e conscientes que há no mundo notório da "mídia". Admiro absurdamente sua personalidade e caráter. Com composições -no mínimo- inteligentes, Yuka sempre foi um defensor da vida e de seus direitos. Quando levou os tiros que o deixaram na cadeira de rodas, não se esquivou do que sempre acreditou, e de maneira admirável não se vendeu, se utilizou ou se colocou como vítima do mesmo sistema que acusa. É apenas mais um deficiente físico, mas com caráter de liderança que há tempos não se via. Ele saiu de uma banda que poderia lhe dar uma notoriedade ainda maior. Notoriedade esta, essencial nos tempos de hoje, de nossa juventude e geração sem foco.
Estou num desses dias que tento escrever muito, mas acabo não escrevendo nada. Quero falar muito e acabo dizendo pouco. Estou decepcionado e frustrado com tal assunto. Não sei mais o que escrever sobre o assunto, hoje. Estou travado. O texto deve estar incongruente, mal redigido e cheio de focos díspares. Mas enfim, espero que a discussão se abra cada vez mais, e ganhe o devido espaço que mereça. E com muita urgência.
E, sim, sou extremamente a favor da pesquisa realizada com células-tronco embrionárias, se isso não ficou claro. Considero a causa tão nobre quanto qualquer pesquisa científica em prol da humanidade. Isso tem de se maior que qualquer moral ou posição política. A vida é muito curta, única e valiosa para ser menosprezada às avessas.
Só para finalizar, hoje no canal GNT, Marília Gabriela entrevistou Ivete Sangalo (reprise do programa de domingo). Esta muito consciente e inteligente. Em certo momento a entrevistadora elogiou o -enorme- anel, de diamantes, de Ivete. Esta, sem pensar duas vezes, tirou-o do dedo e presenteou Marília. Sem graça a apresentadora "teve de aceitar o presente". A questão é, para Ivete a grana em um anel de diamantes não faz tanta diferença. Por méritos próprios, diga-se de passagem. Lutou, suou, investiu e está onde está. Ilumina os palcos por onde passa, transmite alegria para muitos que a escutam e gera felicidade em seus trios elétricos e shows. Mas até onde o que esta ganha é tão mais importante que um trabaho de um lixeiro, por exemplo? Este coleta todos nossos dejetos, diariamente, passa por diversos cantos da cidade, mantém o fluxo e a limpeza, e por assim ser, a dinâmica de toda uma cidade. Quem pode julgar esse trabalho menos valorizado que o de Ivete? Por que ela é tão recompensada pelo próprio suor, e eles não?
Sabemos a resposta, e não estou utilizando a Ivete como bode espiatório, mas apenas como um exemplo isolado que veio à tona em um dia conturbado de idéias. Quem somos nós para julgar o que é mais importante, mais valoroso ou mais digno?
Ah sim, os dois programas que assisti, hoje, foram proporcionados por canais pagos. Ou seja, excludentes.
Somos tão pequenos.
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