sexta-feira, 29 de junho de 2007

meia-entrada e a (anti) democracia de valores

É unanimidade que os preços de shows, cinema, teatro são abusivos. Certo? Nem sempre. O que acontece sempre nesse sentido de elevação de preços é a não preocupação a longo prazo. Se em um dia o preço de um ingresso para cinema custava R$10, e hoje R$18, quase o dobro, isso não pode ser considerado apenas uma questão inflacionária e/ou crise financeira em termos de espetáculo pelo Brasil.

Há um bom tempo está havendo uma discussão sobre os preços abusivos de ingressos para eventos artísticos, principalmente em shows. Se você não conhece o senhor da foto acima, trata-se de Paulo Amorim, diretor da casa de espetáculos Tom Brasil Nações Unidas, em São Paulo. Pois bem, um dos responsáveis pelos preços cada vez mais elevados para "espetáculos" se faz valer pela persona que este representa no meio artístico. Veja bem, não estou, de maneira alguma, culpando o sujeito pela situação atual. Isso seria, além de minimizar o problema, ingenuidade. Mas este, sim, representa uma classe de empresários donos de meios/eventos culturais que permeiam as capitais brasileiras.

Comecemos assim, quanto custa o ingresso para conferir Cirque du Suleil? Pois eu lhes digo, o mais barato, R$130. O que esse show tem tão especial para custar tanto assim? A resposta é perigosa, já que a pergunta, mais ainda. Pela televisão é um espetáculo visual deslumbrante que valoriza o ser humano como arte, e redesenha o papel do circo em sua temática, atribuindo a apresentação a números protagonizados apenas por seres humanos. Ou seja, não há animais. A causa é nobre e válida, mas há uma contradição nisso tudo. Elitizar um movimento ou uma causa faz com que o tiro saia pela culatra, mesmo porque apenas uma porcentagem irrisória terá a possibilidade de conferi-los ao vivo. Quem pagará um terço de um salário mínimo para ir em UM show? Muita gente! Como no caso do U2, a banda "mais politizada do mundo", juntamente com porta voz da fome, representante cultural-artístico da ONU, que é o Bono. O show dos caras, aqui, no terceiro mundo, custou R$200, o ingresso mais barato. Ou seja, suas mensagens não são exatamente a que travestem. Ou melhor, não atingem tais. A "burguesia" parcela seu ingresso em até três vezes e assiste o maior espetáculo da face da terra... Tudo errado.

Onde quero chegar? Ao mais óbvio, por enquanto; a cultura é elitizada e separatista, hoje no Brasil.

Os preços de alguns eventos em São Paulo, hoje (registrando os setores mais baratos):

Exposição Corpos Humanos na OCA - R$40
Exposição Leonardo da Vinci - A Exibição de Um Gênio - R$40
Roberto Carlos - R$90
Incubus - R$90
Teatro Mágico - R$30
Blue Man Group - R$60
Cinema Iguatemi
- R$16

Cinema Metrô Santa Cruz - R$12
Cinema Bristol - R$13

Ou seja, esses são alguns exemplos de eventos culturais que ocorrem na cidade de São Paulo que fazem crer que o seu público seja "selecionado" (em um dos termos mais facistas que surgiu para tal suposição). A pergunta que fica é: por que esses preços tão utópicos em um país terceiro-mundista?

A resposta fica a cargo do senhor Paulo Amorim: "Quando você joga o preço do ingresso a R$ 600, na verdade quer faturar R$ 300, que é o preço verdadeiro da entrada. O câncer dessa história toda é a meia-entrada. Hoje em dia, pagam meia-entrada idosos, deficientes físicos e qualquer estudante, até quem faz MBA, que ganha em média R$ 20 mil por mês, tem uma carteirinha".

Então o pensamento é o seguinte: a meia-entrada é um câncer para os eventos culturais. Vejam bem, os preços abusivos não o são? Os responsáveis, de fato, são as pessoas que possuem o direito de pagar meia-entrada? Desde quando isso? E por que? Por partes. Para mim, o que fica bem claro, é uma bola de neve que parte de cima para baixo e não vice-versa como tenta argumentar Amorim. O empresário joga a culpa nos descontos de meia-entrada, mas aos poucos, aumentando gradativamente os valores de seus ingressos para tapar esse "buraco" que existe entre os descontos de meia-entrada, faz valer um exercício anti-democrático.

A desculpa dos empresários é das uma questões mais comentadas do gênero, atualmente, que são as carteiras estudantis falsificadas. Mas nem entremos na questão do legal e ilegal que, para mim, mais uma vez, é clara a participação nesse setor já que os preços são cada vez mais absurdos. Como exemplo, utilizemos a indústria fonográfica que cobra R$35, em média, por um cd novo, sendo que pela internet você pode baixá-lo "de graça". Agora a indústria está entendendo tal incongruência democrática de valores, e os MySpace´s da vida estão aí para provar que a forma "independente" de divulgação não é errônea e falha, pelo contrário.

Amorim, contra argumenta o fato de todos pagarem meia-entrada, hoje, com: "Havia pessoas que chegaram ao show de Jaguar e que pagaram meia. Eu gostaria muito de trazer uma artista como Liza Minnelli para fazer cinco dias de shows com ingressos a, no máximo, R$ 100, mas o governo oferece benefícios a uma infinidade de setores sociais. Professores da rede pública, por exemplo, têm direito à meia-entrada, agora, se eles ganham mal, não é culpa minha. Os políticos ficam fazendo caridade com o chapéu alheio."

Além de ser incongruente, anti-democrático, é, acima de tudo, hipócrita! Ora essas, não importa se alguém que possua jaguar ou um mercedez pague meia-entrada. Nada lhes impede de fazer isto! Pelo contrário, estão em seus direitos enquanto democracia. Agora se você argumentar que essas pessoas estão roubando essas meia-entradas de pessoas que não podem pagar, será irracional, já que o preço da meia-entrada, quem pode pagar, hoje, são tais pessoas que possuem jaguar, mercedez, BMW em suas garagens.

Ainda bem que nem toda a classe artística está cercada por imbecis como o empresário Paulo Amorim e seus companheiros de SPA/Daslu. Há a opção de assistirmos a um show pelo SESC, por exemplo. Uma exposição, de graça, de Darwin, no MASP (inclusive muito melhor estruturada e interessante que a paga Leonardo da Vinci, na OCA). Ir ao cinema de segundas-feiras no HSBC Belas Artes, pagando R$8, ou então durante a semana no Gemini. Conferir exposições e mostras, gratuitamente, pelo SESI, MIS. Ou seja, opções alternativas, realmente existem, o problema é que elas são minorias e só existem como pérola, porque há uma classe elitista artística que pensa que o preço é equivalente ao espetáculo assistido.

Pobre cidadãos.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

gosto de sangue

Finalmente assisti a continuação de "Extermínio" nos cinemas. Com a entrada de todos esses blockbusters em plena safra de continuações, "Extermínio 2" ainda resta em dois horários, e em dois cinemas por toda a cidade. Estava ansioso para conferir o novo trabalho do espanhol Juan Carlos Fresnadillo, conhecido por "Esposados" e "Intacto", este último, mais famoso por aqui. Agora o diretor faz um filme de gênero, apesar de ter toques bastante autorais em toda a narrativa, como planos mais bem fotografados e movimentos de câmera bem orquestrados, como um todo o filme peca pela narrativa truncada e mal resolvida. O resultado é um filme esforçado, mas mesmo assim fraco, encabeçado por Harold Perrineau (rosto familiar por ter vivido Michael na série "Lost") e Robert Carlyle .

Um filme sobre extermínio de uma população, com o perdão do significante que contém o desprezível título nacional que resume tudo de forma perigosa, é sempre material interessante a se trabalhar. O que me vem à mente logo que penso em tal proposta, são dois filmes recentes dirigidos por dois grandes diretores. O primeiro é "Guerra dos Mundos" de Spielberg, e o segundo é "Filhos da Esperança", de Alfonso Cuarón. Os dois são obras grandiosas, de dois diretores que sabem muito bem conduzir uma narrativa, e mais ainda, sabem, principalmente, aproveitar da premissa para criarem cenas memoráveis, espetaculares, em um ambiente absolutamente tenso. Fora as movimentações de câmera, que muitas vezes são um show à parte. E curiosamente nos dois filmes, uma de suas melhores seqüencias de ação foram protagonizadas dentro de um carro em movimento.

E falando em movimento de câmera, o que já irritou-me profundamente logo em seus primeiros minutos, fora o estilo concebido pelo diretor ao filmar as cenas de ação em "Extermínio 2" (repito, tradução forçada para um título interessante em inglês, e que evidencia em seus créditos que não condizem com o nome em português). Há alguns diretores que ainda acreditam, que quanto mais se balançar a câmera, e quanto mais cortes existirem em dez segundos de cena, esta se tornará tensa. Além de irritante, tal técnica faz mais o favor de tirar a atenção do espectador para com a história do que injetá-lo em uma situação verossímil, o que faz do início do filme uma situação constrangedoramante incômoda. O real problema não está na movimentação de câmera e o tipo de corte, apenas, está, sim, na maneira que o diretor trabalha com essa agilidade frenética. Algo que o diretor Paul Greengrass usa com freqüência em seus filmes. Se em "A Supremacia Bourne" tais movimentos combinavam com a cena de luta crua realizada por seu protagonista, em "Vôo 93" uma das cenas mais tensas do cinema recente ocorre em razão de uma estrutura narrativa impecável que leva tal convulsão fílmica, condizente com o momento que o espectador presenciava, nos dez minutos mais tensos do longa.

Voltando a questão da premissa de "Extermínio 2", o diretor/roteirista parece ter pego o projeto em mãos e ter pensado: legal, uma cidade destroçada, o que podemos criar a partir disso? O resultado são algumas boas idéias desconexas, e por assim ser, diluídas por uma estrutura extremamente ineficaz. O que, para mim, funcionava muito bem no primeiro filme, era a maneira como Danny Boyle utilizava da cidade como personagem. Há algo mais assustador que uma grande metrópole totalmente abandonada? Vide a cena marcante de "Vanilla Sky", quando Tom Cruise abandona o carro e sai correndo pelas ruas em tom de desespero e alegria momentânea. Em "Extermínio" há cenas excepcionais neste sentido, como a do supermercado entregue as moscas. Há algo mais estimulante do que passear por um supermercado abandonado; só seu? Fresnadillo parece ignorar a cidade como espetáculo e cria um filme de gênero muito mais próximo a "Jogos Mortais 2" (em seu ritmo, leia-se: pressa) que um jogo tenso sobre perseguições, desespero. Não sou muito fã dos filmes de zumbi e, portanto, o que eu considero desprezível pode ser o auge para um fã do "gênero" gore.

O que me ocorria quase durante todo o filme fora os porquês de tais escolhas por parte do diretor. Há ainda uma cena em que a escuridão faz parte da tensão, ou melhor, queria fazer. Mal trabalhada a cena remetia-me toda a hora o cinema de Amenábar, que sabe trabalhar com a escuridão como ninguém, como prova em seu "Tesis - Morte Ao Vivo", numa das cenas mais espetaculares do gênero, ou então, em sua obra mais notória, "Os Outros". Já aqui, não. O filme todo é truncado, falho e decepcionante.

Decepcionante em razão do bom diretor que erra em quase todas suas escolhas estéticas e estruturais e na falta de inventividade tendo em vista uma premissa rica em materiais imagéticos e narrativos.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

justiça


RUBENS ARRUDA BRUNO

FELIPPE DE MACEDO NERY NETO

JÚLIO JUNQUEIRA

RODRIGO BAÇALO

LEONARDO ANDRADE

Foram esses, os imbecis que espancaram Sirlei Dias Carvalho Pinto.

"Achamos que era uma vagabunda."


"Sirlei é mais frágil por ser mulher e por isso fica roxa com apenas uma encostada"
pai de Rubens.






Que esses FACISTAS não fiquem impunes!


“dedicamos essa música ao índio Pataxó Galdino, que morreu pelas mãos de uns meninos mimados do Distrito Federal. Só deus sabe o motivo pelo qual eles não foram condenados! Cada um na sua (eles não foram condenados) Cada um na sua (ninguém tocou no assunto) Cada um na sua (no final ficou todo mundo nu)"

segunda-feira, 25 de junho de 2007

ópera tango

Depois de um bom tempo sem blogar, eis que volto para comentar algumas coisas bem sucintamente.

O que falar? Bom, o show do Gotan Project, aqui em Sampa, foi excepcional! Começaram com uma batida conhecida pelos meus ouvidos, até que subiram ao palco, um por um, e iniciaram o show com "Diferente". Foi de chapar. As imagens que se seguiram durante todo o show foram perfeitamente encaixáveis ao ambiente musical. Ao vivo são muito bons. Como nos cd´s o som da banda é empolgante e cheio de classe. Para mim motivo de nota, foi a má qualidade de um som pouco equalizado no início da apresentação, aumentando a voz da vocalista e do violinista gradativamente, o que irritou-me um pouco, fora o esquema de mesas numeradas que não ajudou em nada o show. Se por um lado, há um mês atrás quando fui ao show do Nando Reis no Citbank Hall, havia na ocasião elogiado o sistema de cadeiras numeradas para aquele tipo de espetáculo, aqui o mesmo não funcionou no Via Funchal. Desorganizado, mal estruturado e apertado são algumas características que pareceram-me em relação a casa. Fora a mal educação do público estressado em geral, que mais parecia ter caído de para-quedas "na balada".

Voltando ao show, no bis tocaram mais uma vez "Diferente". Quer dizer, uma versão de "Libertango" (conhecida por mim, através do filme "Busca Frenética", de Roman Polanski, cantada por Grace Jones) com as batidas de "Diferente". Soube que foi lançado no Brasil o primeiro cd da banda, "La Revancha Del Tango" juntamente com o dvd da mesma turnê. Na Fnac, o dvd, com 20% de desconto, está saindo por R$29,90. Enfim, um excelente show numa deliciosa noite paulistana.


Outra coisa que queria comentar, pelo menos por enquanto por cima, é sobre o filme "Não Por Acaso", de Phillipe Barcinski, com Rodrigo Santoro e Letícia Sabatella. Vão ver! O filme é excelente. Começa com uma linda ópera de câmeras, carros e avenidas. Mostra uma São Paulo crua, e por assim ser, bela. Fala sobre trânsitos, caminhos, destinos. Ou seja, sobre a vida e suas implicações dentro da passagem do tempo, da esperança. Um belíssimo filme com uma atuação excepcional de Santoro. Os créditos remeteram-me a "O Quarto do Pânico", que acham?

Parece que foi confirmado, para o TIM Festival, dentre outras bandas, The Killers e Arctic Monkeys. Curiosa escolha. Além da obviedade da opção de quem faz dinheiro hoje no mundo alternativo-pop, as duas bandas lançaram seu segundo disco depois da expectativa do frissón do primeiro trabalho. Curiosamente, ou nem tanto, não gostei dos dois trabalhos como um todo e toda a expectativa em torno das bandas ruiram-se um pouco em razão de uma mesmice na sonoridade de suas novas composições. Só um parêntese; o contrário ocorreu-me com o Bloc Party. O primeiro cd super festejado por fãs e crítica passou-me despercebido aos ouvidos, já o segundo agradou-me muito. Não sei porque disse isso mesmo porque a banda não fará parte das duas e mais outras que virão ao Brasil, mas enfim, de qualquer maneira vou ao TIM Festival pelas duas bandas citadas apesar de pseudo-frustrações.

Dos recentes lançamentos que vêm amparado pela numerologia do 3, ainda não assisti a nenhum fora "Homem-Aranha 3". "Piratas do Caribe", "Treze Homens E Um Novo Segredo", "Shrek Terceiro" são novidades ainda para mim. Pretendo assistí-los, mas antes há outros filmes em cartaz, esmagados por estes, que possuem pouco tempo de vida útil em cartaz pela cidade, como o caso do espanhol "Princesas", dentre tantos outros. Enfim...

Na verdade comecei o post para falar de outro assunto, com mais extensão nos comentários, porém excedi-me nesse post. Portanto, deixo o assunto arquivado (democracia, cotas para negros e impressa) para um próximo post.


sexta-feira, 22 de junho de 2007

dèjà vu

Sensacional!

Harrison Ford, de volta ao batente, em sua primeira aparição como Indiana Jones.

Foto divulgada por Steven Spielberg.

*Nostalgia alegre... Demais!

Agora é só esperar...

quarta-feira, 6 de junho de 2007

na mesma praça, no mesmo banco

Acabei de assistir "O Mesmo Amor, A Mesma Chuva", do argentino Juan José Campanella. Sou grande admirador de seu cinema. Gosto muito do diretor. De seus filmes lançados no Brasil, só não havia assistido este que acabo de conferir pelo Telecine Cult. "O Filho da Noiva" e "Clube da Lua" são dois filmes espetaculares. O primeiro foi sucesso absoluto quando lançado. Tanto nas Mostras e Festivais de Cinema como para o público. Ficou um bom tempo em cartaz, foi bastante comentado e virou cult. E mais ainda, deu mais força ao cinema argentino que foi chegando cada vez mais em peso -e qualidade- a seus países vizinhos.

Além dos longas, apreciei a série concebida pelo diretor, "Vientos de Agua", veiculada pela HBO esse ano no Brasil. Como em seus filmes, na série, Campanella consegue extrair da premissa grandes diálogos, situações críveis amparados por um drama muito peculiar de uma nova classe artística. São secos, mas não tanto como os europeus, e possuem calor, mas não tanto como os brasileiros. Uma arte na medida certa.

Tendo em vista todos esses elogios que concebo à persona de Campanella, era de se esperar algo muito produtivo de seu filme, assistido hoje. Mas por surpresa não gostei do resultado. Talvez falar que não gostei seria muito cruel para com o longa, que possui suas qualidades, mas não as acima citadas que me conquistaram quando descobri o diretor e seu cinema. O filme falha exatamente nesses aspectos. É mais óbvio, mais melodramático, e menos sutil. O destaque fica por conta da excelente dupla, já tão acostumada a dividir tela, Ricardo Darín e Eduardo Blanco. Há também um jovem Rodrigo de la Serna (Alberto Granado em "Diários de Motocicleta") em um papel nada carismático, porém interessante.

É um bom filme sobre relacionamentos e amadurecimento, mas longe de ser grande como seus outros dois exemplares, que em proposta é infinitamente mais conciso e maduro que "O Mesmo Amor, A Mesma Chuva". Muitas pessoas consideram esse o melhor do diretor. Para mim é covardia. Não o longa, mas a escolha.



FILMES - DESTAQUES DO DIA

Faz um tempo já que não posto isso. Mais por falta de tempo do que de vontade.

Então...

Uma boa opção para a tarde é o filme "Minha Vida Sem Mim", uma fita independente simples, bela e triste. No elenco, os ótimos Mark Ruffalo e Sarah Polley. O longa me lembra, o mais triste ainda, "Voltando Para a Casa". Vale a pena conferir. Os dois. Mas "Minha Vida Sem Mim" passa amanhã, às 16:35, no Telecine Emotion, que virou agora, Telecine Light. De light o filme não tem nada, mas enfim.

Já para os assinantes dos canais HBO, a opção fica por conta do longa oriental "Herói". Zhang Yimou é um grande diretor chinês. Possui uma cinematografia invejável com grandes filmes autorais, e ecléticos. Dentre eles está a trilogia sobre império e artes maciais que traçou com esse "Herói", "O Clã das Adagas Voadoras", e o último "A Maldição da Flor Dourada" prestes a ser lançado por aqui, no Brasil, que inclusive conquistou, mais uma vez, a crítica especializada e dizem ser o melhor dos três. Enfim, comparações à parte, não perca o deslumbre visual que é "Herói", às 17:00 na HBO Plus (e 20:00 na HBO Plus*2). Como diria certa pessoa, o filme é uma "surra para os olhos".

Às 20:10 um fato curioso ocorre no Telecine Cult, pois o canal exibe o apartidário "Team América - Detonando o Mundo". Dos criadores de "South Park", a animação baseada no clássico "Thunderbirds" com bonecos de marionetes, a comédia não perdoa ninguém. Com piadas ofensivas aos moldes "Borat", a animação chuta o balde e detona o mundo, literalmente. O fato curioso fica por parte do canal que a exibe, não muito costumeiro em tais incursões. Mas é um filme interessante, e por vezes, hilário.

Às 22:00, no Telecine Action, há a possibilidade de conferir o trabalho de um diretor incrivelmente irregular. Joel Schumacher foi responsável por filmes interessantes como "8mm", "O Cliente", "O Custo da Coragem" e a atração do canal Telecine, "Por Um Fio", por exemplo. Em contrapartida cometeu as atrocidades "Batman Eternamente", "Batman & Robin", "Má Companhia", e recentemente "O Número 23". É um diretor que não pode se confiar muito. Não é um autor ruim, mas pouco confiável, mesmo. Na atração do Telecine há um interessante exercício de suspense dentro de uma cabine telefônica e clima hitchcockiano. Em pouco mais de uma hora de fita, a história é bem concisa e amarrada.

Há ainda "O Sol de Cada Manhã", com Nicolas Cage às 23:30 no Telecine Pipoca. Apesar de muito interessante, o filme é exibido de maneira dublada pelo canal. Se você não se importar com o fato não perca a fita dirigida por Gore Verbinski, conhecido também como diretor da trilogia "Piratas do Caribe". E um pouco mais tarde, às 02:20 da madrugada, "Fogo Sagrado!" no Telecine Cult. Trata-se de um filme denso porém belo, estrelado por uma menos conhecida Kate Winslet, na época, e ótima como sempre. Filmão.


terça-feira, 5 de junho de 2007

you know my name

Baixei o novo cd solo de Chris Cornell, pós saída Audioslave. Gostei do resultado, apesar de não considerar tão empolgante quanto prometia de início. O começo com "No Such Thing" é arrasador, mas ao avançar o resultado vai decaindo, assim como a própria faixa. Dentre as músicas contidas no cd, está a -bela- regravação de "Bille Jean" e "You Know My Name", tema do novo 007. E é com essa inspiração que me leva a escrever sobre o filme que me veio à mente através dessa bela canção.

Disque M Para Matar

Fazia algum tempo que não sentia emoção, ou melhor, empolgação com a série protagonizada pelo agente secreto mais famoso do cinema. Quando “
007 – Cassino Royale” tem início, a empolgação que me veio fora inequívoca: um dos melhores exemplares estava tendo início, juntamente com a inspirada música de Chris Cornell.

Depois de quatro filmes, sai Pierce Brosnan, e entra Daniel Craig. Uma mudança radical não só pelo peso da própria atuação, mas também pelo caráter físico do ator. Loiro e de olhos claros, Craig vai à contramão de tudo que se estereotipava em termos de James Bond. Convenhamos, de uns anos para cá, a série era mais considerada fetiche do que filme, levando em consideração que o agente já protagonizou grandes longas na pele de Sean Connery, Roger Moore e alguns outros atores.


Fazia um tempo que o personagem precisava de um upgrade, de uma atualização para o mundo em que vivemos. O que ocorreu de forma acertada com o excelente “Batman Begins”. O espião estava ficando velho e atrasado com a chegada de Jack Bauer, Jason Bourne entre outros personagens de fato. Porém o ditado antes tarde do que nunca ainda é válido.


O longa dirigido por Martin Campbell aprofunda na formação de James Bond como 007 e dá novo gás a série. Tudo no filme é mais crível. As lutas mais cruas, os diálogos mais inspirados, os vilões mais humanos (no sentido de atingíveis e carnais) e o próprio agente muito mais vulnerável, o que resulta no filme mais bem sucedido da série de uns bons anos para cá. O roteiro é inteligente o suficiente para envolver o espectador não duvidando de sua inteligência. As ações continuam fantásticas, porém menos incríveis e mais bem coreografadas. A sensação é de empolgação e admiração para com os (excelentes) dublês.


E por falar em excelente, o adjetivo cabe bem ao grande ator que Craig o é. Diferentemente de muitos outros que se travestem do personagem e encarnam só o que o estereótipo lhes propõe, Craig vive a pessoa e torna complexo o fenômeno imagético que veste.


Os diálogos estão também muito mais divertidos e sarcásticos, sem deixar o clima James Bond de lado, imortalizado por Connery. Mas o roteiro vai além e investiga os motivos que levam a Bond ser quem ele é hoje, ou melhor, quem será amanhã. De resto, todas as outras atuações são dignas, desde a veterana Judi Dench à estreante Eva Green, passando ainda pelos ótimos Jeffrey Wright e Mads Mikkelsen.


Enfim, é sempre bom ter de volta grandes personagens com histórias ao nível de suas figuras. E é sempre bom ter Bond, James Bond, à ativa ensinando aos mais jovens como é que se vive e deixa-se morrer.

É agente como a gente.

cinema argentino

Para quem possui o canal pago da rede Telecine, e aprecia o novo cinema argentino, a dica é ficar esperto para com toda terça do mês de Junho, que o canal reservou um horário (22:00) para "homenagear" esse cinema.

HOJE - "O Mesmo Amor, A Mesma Chuva" de Juan José Campanella

12/JUN - "Plata Quemada" de Marcelo Piñeyro

19/JUN - "Do Outro Lado da Lei" de Pablo Trapero

26/JUN - "O Abraço Partido" de Daniel Burman

depois daquele beijo










Dois grandes atores da comédia atual, no MTV Movie Awards.


Will Ferrell e Sasha Baron Cohen.

glória feita de sangüe

Pela hierarquia de atualização do blog, e erro de diagramação minha, leia o post anterior, primeiro.

E como prometido, mais para mim mesmo, postarei sobre "Cartas de Iwo Jima".


"Durão não é o bastante..."

Acertadamente utilizando da mesma fotografia da orla ocidental, “Cartas de Iwo Jima” começa com um plano belíssimo que dialoga de cara com seu prequel, conferindo já ali uma emoção no espectador que reconhece que está a assistir um clássico recente. É impressionante o charme que Eastwood confere a seus trabalhos. Em “Sobre Meninos e Lobos” a cena que abre o filme é também digna da obra prima que se segue, assim como este. Só grandes diretores são capazes disso, recentemente acertando a mão de novo, Scorsese atinge essa mesma sensação com seu recente “Os Infiltrados” (a cena inicial com a silhueta de Nicholson e com a trilha dos Stones é absolutamente sensacional).


Como era de se esperar, nesse filme, a visão dos acontecimentos é mais árdua, mais crua e, conseqüentemente, mais sensível. Se na visão americana do massacre a concentração da narrativa era no pré, durante e pós, aqui é muito mais (se não quase toda) no durante. Mais cansativo e sofrível, o filme acompanha com eficiência o que deve ter sido a vida dos soldados japoneses que lutaram bravamente contra o mega exército americano. Uma referência pode ser traçada com a luta travada entre as centenas de espartanos contra a esmagadora maioria dos milhares de persas. Embora, talvez essa comparação não seja suficiente ou tão apropriada quanto ao massacre no Iraque ou Afeganistão proporcionado pelos mesmos EUA de hoje.


Ken Watanabe vive o grande general que comanda a força japonesa na Ilha, que assim como seus comandados, acredita que se perder tal batalha será convite para uma inevitável invasão ianque ao país. Portanto doam-se ao máximo para suportar até onde podem, e caso morram que seja esta feita com glória (a tal conquista da honra presente aqui também).


Cinematograficamente falando, este é um retrato de guerra que impressiona mais, já que o envolvimento com os personagens presentes na Ilha é maior. Algo que Eastwood, com sua fina carpintaria, cria durante a primeira hora do longa. Ao apresentar os soldados com desenvolvimento narrativo impecável, é fácil identificarmos com cada uma daquelas vidas, algo que Clint trabalha tranqüila e acertadamente. Esquece que o que passa é um filme de guerra. E que mais tarde elucida o cuidado do diretor, pois quando começam os bombardeios, não são apenas os japoneses que são pegos de surpresa em razão brutalidade de tais, o espectador também choca-se com a realidade que o longa impõe.


É de se espantar que dois filmes tão complexos e bem filmados foram produzidos quase que simultaneamente. Eastwood é famoso por trabalhar muito rápido. Com “Menina de Ouro”, filmou tudo em 38 dias. Isso é excelente para todos admiradores da grande Arte, já que todo ano seu nome está lá inserido nas salas de cinema, lembrando que sempre há tempo para celebrarmos nossos grandes autores.


"Cartas de Iwo Jima" dá mais razão a sua escolha. Não é preciso provar mais nada. Clint é um mestre na direção, e confirma o fato com suas obras recentes, que em temas tão diversos e complexos se completam pela razão do ser humano. Em todos seus trabalhos a morte está inserida. Não à toa. Esta figura sensível sabe que o homem teme sua própria, porém sem temer as conseqüências dela mesma, o antigo valentão nos brinda com aulas de Cinema, e de vida, a cada novo projeto.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

entre o céu e a terra

Quando postei sobre o filme "Zodíaco", disse em algum lugar que David Fincher é um dos americanos mais interessantes que filmam, hoje. Também li em vários lugares isso, inclusive em Cannes a sensação é a de que Fincher é "o melhor", ou então divide-se esse trono com Michael Mann. O que acontece é que somos imediatistas e esquecemos muitas coisas, ou pessoas. Evitei ao máximo dizer que Fincher é o maior e melhor, hoje em dia. Para mim, antes dele há Clint Eastwood, por exemplo, que mesmo com 79 anos de idade, ainda faz cerca de um filme por ano. E esses, no mínimo, interessantes. Foi nessa tomada de consciência que decidi escrever sobre o cinema atual de Clint. Primeiro com "A Conquista da Honra", depois pretendo falar sobre "Cartas de Iwo Jima", que forma o díptico. Enfim, sem razão muito óbvia ou motivo aparente, eis que surge esse filme em minha mente!


A Outra História Americana

Clint Eastwood é um dos maiores diretores em atividade, talvez o maior dentro do cinema norte americano. Esse título pode lhe ser -talvez errôneo e equivocadamente- atribuído em razão de uma vontade de subjugar ou relativizar seu trabalho para colocá-lo em um prisma que possa ser melhor administrado em um entendimento coletivo. Porém, a figura de Eastwood bate de frente com essa preocupação, sendo este –hoje- um sujeito mais preocupado com o processo, com a criação, e por assim ser com a curiosidade de se fazer cinema do que com tal arquétipo.


E arquétipo este, a que o próprio condenou-se nas décadas passadas, compondo uma carreira pontuada dentro de um cinema americano, sempre travestido e associado à persona do valentão. Essa figura bruta, porém, esfacelou-se dando cara e razão para uma nova fase de sua carreira em que Eastwood dedica em dirigir projetos que contenham um único gênero: o ser humano.


E especialmente nesse novo, e digno projeto, essa preocupação com um título é desvencilhada. A figura dos heróis é confrontada com a razão dos próprios em um mundo carnal. Eastwood afirmou que sua intenção não era a de associar a 2ª Guerra Mundial com o que ocorre hoje no Iraque, porém pode ser assim relacionada, admitiu. Na Era Bush filho, com a queda dos gêmeos sentimentos da segurança e da prepotência, a poeira da vulnerabilidade empesteou a “América” e seus heróis ruíram-se juntamente com a fragilidade coletiva. Super homens, homens aranhas, capitães América e outras figuras lendárias patrióticas deram lugar a um lugar-comum, o do medo de não podermos contar com a lenda, mas apenas com o "próximo". O fato de o ser humano ter a necessidade de contar uns com os outros é frágil, não por substituir a pele do herói, mas para entender que os heróis, antes de tudo, são humanos e criação própria. Mudar esse conceito é talvez o processo mais difícil, e Eastwood, sabendo disso, trabalha o rito em “
A Conquista da Honra”, que forma o díptico com “Cartas de Iwo Jima”.


O diretor não apenas costura uma obra que desmistifica a figura do herói, mas também dá face ao inimigo. Apenas nessa empreitada de imparcialidade, os filmes já merecem ser reverenciados, mas suas grandes qualidades fazem desses, além da notoriedade, uma rica experiência proporcionada por um grande cinema.


Aqui, na visão norte americana dos ataques à ilha de Iwo Jima, Eastwood compõe um longa de guerra digno de diretores consagrados. Lembra a visão que Oliver Stone imprimiu em “
Entre e o Céu e a Terra”, lá recordando o Vietnã. Um filme de guerra que ao mesmo tempo em que a reconta, critica-a, numa fase em que Stone era um dos mais críticos à cultura norte-americana e que mais tarde, sem sinais claros, esse mesmo diretor realizou o docudrama imparcial e inóspito "Torres Gêmeas".


Voltando ao cinema de Eastwood. Uma foto pode ganhar uma guerra sendo elemento interpretante a um acontecimento isolado que solidifica todo o contexto inserido. A tal foto, é uma das mais conhecidas pelos ianques; aquela na qual há um grupo de cinco ou seis homens cravando a bandeira da "América" em território inimigo. Antecipando uma filosofia que viria a se intensificar mais tarde durante a Guerra Fria; qualquer tipo de arma é válido para tal honra da pátria. E esta, no caso, é uma imagem. Mais poderosa que qualquer ameaça, é por si só manipuladora.


Na narrativa, o filho de um dos militares atuantes no exército norte-americano vai atrás de informações que seu pai nunca antes havia lhe contado. Em flashbacks mostram-se os campos de batalha e a vida desses soldados no pós-guerra, meses depois dos confrontos sangrentos em Iwo Jima. Muita gente vem torcendo o nariz para “A Conquista da Honra” sem antes assisti-lo julgando o que não sabem, porém não é apenas necessário este longa para assistir o aclamado “Cartas de Iwo Jima”. É primordial para entender a visão plural desse diretor tão sublime. Um não se completa sem o outro. Longe de ser um jogo de marketing como Tarantino fez com seu “Kill: Bill”, dividindo-o para lucrar em dobro, Clint dá voz ao derrotado em diferentes filmes que se completam, seja pela estética ou pela mensagem.


Eastwood, como dito, possui técnica de mestre e filma como um deles. O charme em suas obras foi elevado a partir dessa nova fase, que se iniciou com “Sobre Meninos e Lobos e “Menina de Ouro”, ambos grandiosos. E a partir dessa sensibilidade, seu trabalho agora é com a razão de ser do ser humano, nascendo assim uma das figuras mais sensíveis do cinema em atuação.


Por fim, “
A Conquista da Honra
é mais que um excelente filme de gênero, é um estudo da alma humana e seus maiores medos e frustrações em tempos de Bush. E tempos esses, que dialogam com o período da segunda grande guerra. E tudo isso saindo de um diretor de 79 anos de idade, mais em forma -e atual- que nunca. É gratificante ter mestres ainda atuantes no mercado cinematográfico.

domingo, 3 de junho de 2007

pânico

"Que filme tosco!" Essa foi a frase que ouvi ao final da sessão de "Zodíaco". Esta, devidamente dita por uma espectadora que se encontrava bem atrás de minha poltrona, no cinema. Talvez esse seja o melhor elogio que o filme possa receber, se esta for proferida por um público que ao entrar para assistir um filme de serial killers, esperava encontrar "Jogos Mortais", "O Colecionador de Ossos" e afins, e como espanto, pagaram para assistir uma das obras mais complexas do gênero, em mais um (genial) trabalho de um dos diretores mais interessantes -americano- em atividade.

David Fincher é responsável por duas obras-primas do cinema da década passada. "Clube da Luta" virou cult-manifesto, mas é com "Se7en" que o diretor revoluciona a maneira como filmes de serial killers foi contado. Voltando ao parágrafo anterior, não julguei a espectadora ou os filmes citados. O gosto é particular e "intransferível", certo? Mas o sucesso retumbante de filmes como "Jogos Mortais" se devem ao filme de Fincher. Para não dizer pseudo-cópia, "Jogos Mortais", "Ressurreição - Retalhos de Um Crime" (para deixar claro, gosto dos dois), por exemplo, foram claramente inspirados na estrutura de "Se7en", quer seja isso para o bem ou mal.

Dito isso, sinto-me no dever de alertá-los, antes de mais nada, para que confiram esse filme libertos de toda a bagagem que o cinema de "terror"/suspense -juvenil- atual carrega. As propagandas envoltas da obra podem muito enganar.

Psicopata Americano

Pois bem, quando assisti, pela primeira vez, "Os Infiltrados", de Scorsese, a reação que tive ao acompanhar a primeira cena que contém a silhueta, e voz, de Jack Nicholson ao som dos Rolling Stones, foi de cutucar meu amigo ao lado, no cinema, e lhe dizer que tinha a impressão de acompanhar o nascimento de um clássico recente. E fora exatamente essa mesma reação que tomou-me quando as primeiras imagens de "Zodíaco" foram projetadas.


Quando disse que a propaganda pode enganar, ou quando citei outros filmes para fazer ponte à "Zodíaco", talvez tenha sido prepotência e precipitação por minha parte. Primeiro que não se elogia obra alguma "depreciando" outra (embora estivesse apenas exemplificando a importância do cinema de Fincher), e que o tal erro de expectativa tenha se aplicado a mim também, admito. Não estava esperando, ou preparado, para um filme tão complexo em sua narrativa e análise. Trata-se de um estudo de personagens tão fascinante que, por si só, emerge o suspense, terror, dentro do drama, nisso o filme lembrou-me, mesmo que estranhamente, "Fanny e Alexander", de Bergman. Chega a um momento que a angústia passa a ser racional, passível de frustrações. Isso faz o filme se tornar grande, e talvez até único em sua empreitada.

Que David Fincher é um excepcional diretor, isso muitos já sabem, vide seus trabalhos não tão notórios como os dois que fizeram a imagem de sua carreira, como os, no mínimo, interessantes "Vidas em Jogo" e "O Quarto do Pânico", mas a boa notícia é que o diretor, acertadamente, não se prendeu a um estilo ou um vício explícito de narrativa derivado por seus sucessos antecessores. Quando "Zodíaco" tem início parece que iremos assistir a mais um grande filme de suspense aos moldes de "Se7en", e é quando quando a narrativa vai evoluindo, diminuindo seu ritmo frenético do thriller, e mergulha cada vez mais no que envolve os assassinatos. Um trabalho de causa e conseqüência irreparável.

O tal zodíaco do título, se refere ao famoso assassino em série que apavorou a sociedade americana no começo da década de 60, mais precisamente em São Francisco, em que o perigo e medo eram iminente. Uma espécie de maníaco do parque americano, guardadas todas as ressalvas, já que o brasileiro fora capturado em poucos meses após os acontecimentos, ao contrário de um dos casos mais famosos enfrentados pela polícia ianque, até hoje. Falar o que acontece com o caso é revelar o final do filme. Não seria esse todo o problema, mas um de seus maiores charmes está incluso nesse encerramento que não apenas faz jus a todo o processo fílmico, como também faz exaltar/inverter todas as más qualidades que poderiam ser acusadas por espectadores menos atentos.

A concentração da trama na parte midiática e civil para com os crimes e não para com eles, propriamente, é admirável e é a chave para o filme funcionar tão bem em sua estrutura complexa, a partir do livro homônimo escrito por Robert Graysmith, interpretado por Jake Gyllenhaal. E falando em elenco, este também é encabeçado pelos também ótimos Mark Ruffalo e Robert Downey Jr. (excepcional no papel). O longa passeia por diversas fases das investigações do fato, ora concentrando sua narrativa em personagem X, ora em personagem Y, e assim por diante. Ainda conta as presenças dos conhecidos Brian Cox, Choë Sevigny, Phillip Baker Hall e John Terry (rosto famoso pela série "Lost", em que interpreta o pai do personagem Jack).

Funciona como uma contra-cultura que advoga em uma linha tênue entre a crítica e o descaso de um país que produz guerra. No pós-11 de Setembro e toda sua paranóia, o filme abraça, em certas circunstâncias, o ocorrido.
Seja esta na maneira como destrói a vida dos personagens através da busca, ou o fator culpa/vingança enraizado no processo, já que o assassino se revela através de cartas, códigos e mensagens subliminares, porém esse inimigo não possui face. Por mais que comparações desta conjuntura já se encaixem na denominação clichê das análises.

O filme como um todo, mais precisamente sua edição, lembrou-me bastante o trabalho de Clint Eastwood com seu "Sobre Meninos e Lobos". Os cortes pareceram-me precisos em sua totalidade, dando fluidez a obra e, melhor ainda, naturalidade quando o tempo cronológico saltava. Enquanto isso, Fincher foi esculpindo sua obra com cuidado criando um clímax que funciona muito mais como um elemento contraditório as suposições do que a própria recíproca. Por isso mesmo é também admirável sua apresentação dos fatos, respeitando a cronologia e a aura dos acontecimentos.

Como em "Se7en" nem sempre os que procuram são tão perspicazes como os procurados. Para se fazer justiça, nesse caso, há também de se recorrer a ela. As leis que incriminam são as mesmas que absolvem, já que para finalizar o pensamento de acusação, esse tem de estar de acordo com o Direito que uma sociedade validou. Ser inspirado em fatos verídicos fazem de "Zodíaco" um precursor na maneira como compõe suas análises, acusações e relatos. Em outras palavras, fazem deste, um puta filme!

| fique esperto! | gotan project em são paulo

Lá estava eu, sexta-feira, tranqüilo, lendo o jornal na maior calma que um dia sem compromissos podia proporcionar. Depois de folhear e ler algumas matérias sem muito interesse, peguei o caderno de culturas e comecei a folhear para ler algumas críticas e saber quais os filmes que estreariam no dia. E é quando viro outra página que o mundo do show-business, numa espécie de conspiração, faz meu dia mudar. Foi desse anúncio de meia página (foto acima) a razão pela qual minha leitura fora interrompida por um incrédulo show em uma época igual. Para quem leu esses posts anteriores (aqui e aqui) sabe o porque dessa minha reação como a de um adolescente ao deparar com um show do Linkin Park, que seja, no Brasil.

Muito improvável. Esse era meu pensamento a respeito da vinda do Gotan Project ao Brasil. E não é que eles vêm?! Dia 20 de Junho, única apresentação em São Paulo, Via Funchal, e mais alguns shows por outras capitais brasileiras e sul-americanas. Sei que irão tocar também no Rio e em Buenos Aires, mas de resto ainda não sei ao certo qual será a agenda da banda.

Depois de toda a papaguaiada costumeira para ir a um show em São Paulo -meia-entrada a preço de inteira, adquirir o tal desconto apenas no local do evento, taxa de compra pela internet com preços utópicos (R$18,00!!) e dentre outros absurdos em furos da lei dita como democrática- ingresso comprado!

Agora é só esperar e ouvir para aquecer. O frio e os ouvidos.