quinta-feira, 28 de junho de 2007

gosto de sangue

Finalmente assisti a continuação de "Extermínio" nos cinemas. Com a entrada de todos esses blockbusters em plena safra de continuações, "Extermínio 2" ainda resta em dois horários, e em dois cinemas por toda a cidade. Estava ansioso para conferir o novo trabalho do espanhol Juan Carlos Fresnadillo, conhecido por "Esposados" e "Intacto", este último, mais famoso por aqui. Agora o diretor faz um filme de gênero, apesar de ter toques bastante autorais em toda a narrativa, como planos mais bem fotografados e movimentos de câmera bem orquestrados, como um todo o filme peca pela narrativa truncada e mal resolvida. O resultado é um filme esforçado, mas mesmo assim fraco, encabeçado por Harold Perrineau (rosto familiar por ter vivido Michael na série "Lost") e Robert Carlyle .

Um filme sobre extermínio de uma população, com o perdão do significante que contém o desprezível título nacional que resume tudo de forma perigosa, é sempre material interessante a se trabalhar. O que me vem à mente logo que penso em tal proposta, são dois filmes recentes dirigidos por dois grandes diretores. O primeiro é "Guerra dos Mundos" de Spielberg, e o segundo é "Filhos da Esperança", de Alfonso Cuarón. Os dois são obras grandiosas, de dois diretores que sabem muito bem conduzir uma narrativa, e mais ainda, sabem, principalmente, aproveitar da premissa para criarem cenas memoráveis, espetaculares, em um ambiente absolutamente tenso. Fora as movimentações de câmera, que muitas vezes são um show à parte. E curiosamente nos dois filmes, uma de suas melhores seqüencias de ação foram protagonizadas dentro de um carro em movimento.

E falando em movimento de câmera, o que já irritou-me profundamente logo em seus primeiros minutos, fora o estilo concebido pelo diretor ao filmar as cenas de ação em "Extermínio 2" (repito, tradução forçada para um título interessante em inglês, e que evidencia em seus créditos que não condizem com o nome em português). Há alguns diretores que ainda acreditam, que quanto mais se balançar a câmera, e quanto mais cortes existirem em dez segundos de cena, esta se tornará tensa. Além de irritante, tal técnica faz mais o favor de tirar a atenção do espectador para com a história do que injetá-lo em uma situação verossímil, o que faz do início do filme uma situação constrangedoramante incômoda. O real problema não está na movimentação de câmera e o tipo de corte, apenas, está, sim, na maneira que o diretor trabalha com essa agilidade frenética. Algo que o diretor Paul Greengrass usa com freqüência em seus filmes. Se em "A Supremacia Bourne" tais movimentos combinavam com a cena de luta crua realizada por seu protagonista, em "Vôo 93" uma das cenas mais tensas do cinema recente ocorre em razão de uma estrutura narrativa impecável que leva tal convulsão fílmica, condizente com o momento que o espectador presenciava, nos dez minutos mais tensos do longa.

Voltando a questão da premissa de "Extermínio 2", o diretor/roteirista parece ter pego o projeto em mãos e ter pensado: legal, uma cidade destroçada, o que podemos criar a partir disso? O resultado são algumas boas idéias desconexas, e por assim ser, diluídas por uma estrutura extremamente ineficaz. O que, para mim, funcionava muito bem no primeiro filme, era a maneira como Danny Boyle utilizava da cidade como personagem. Há algo mais assustador que uma grande metrópole totalmente abandonada? Vide a cena marcante de "Vanilla Sky", quando Tom Cruise abandona o carro e sai correndo pelas ruas em tom de desespero e alegria momentânea. Em "Extermínio" há cenas excepcionais neste sentido, como a do supermercado entregue as moscas. Há algo mais estimulante do que passear por um supermercado abandonado; só seu? Fresnadillo parece ignorar a cidade como espetáculo e cria um filme de gênero muito mais próximo a "Jogos Mortais 2" (em seu ritmo, leia-se: pressa) que um jogo tenso sobre perseguições, desespero. Não sou muito fã dos filmes de zumbi e, portanto, o que eu considero desprezível pode ser o auge para um fã do "gênero" gore.

O que me ocorria quase durante todo o filme fora os porquês de tais escolhas por parte do diretor. Há ainda uma cena em que a escuridão faz parte da tensão, ou melhor, queria fazer. Mal trabalhada a cena remetia-me toda a hora o cinema de Amenábar, que sabe trabalhar com a escuridão como ninguém, como prova em seu "Tesis - Morte Ao Vivo", numa das cenas mais espetaculares do gênero, ou então, em sua obra mais notória, "Os Outros". Já aqui, não. O filme todo é truncado, falho e decepcionante.

Decepcionante em razão do bom diretor que erra em quase todas suas escolhas estéticas e estruturais e na falta de inventividade tendo em vista uma premissa rica em materiais imagéticos e narrativos.

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