domingo, 3 de junho de 2007

pânico

"Que filme tosco!" Essa foi a frase que ouvi ao final da sessão de "Zodíaco". Esta, devidamente dita por uma espectadora que se encontrava bem atrás de minha poltrona, no cinema. Talvez esse seja o melhor elogio que o filme possa receber, se esta for proferida por um público que ao entrar para assistir um filme de serial killers, esperava encontrar "Jogos Mortais", "O Colecionador de Ossos" e afins, e como espanto, pagaram para assistir uma das obras mais complexas do gênero, em mais um (genial) trabalho de um dos diretores mais interessantes -americano- em atividade.

David Fincher é responsável por duas obras-primas do cinema da década passada. "Clube da Luta" virou cult-manifesto, mas é com "Se7en" que o diretor revoluciona a maneira como filmes de serial killers foi contado. Voltando ao parágrafo anterior, não julguei a espectadora ou os filmes citados. O gosto é particular e "intransferível", certo? Mas o sucesso retumbante de filmes como "Jogos Mortais" se devem ao filme de Fincher. Para não dizer pseudo-cópia, "Jogos Mortais", "Ressurreição - Retalhos de Um Crime" (para deixar claro, gosto dos dois), por exemplo, foram claramente inspirados na estrutura de "Se7en", quer seja isso para o bem ou mal.

Dito isso, sinto-me no dever de alertá-los, antes de mais nada, para que confiram esse filme libertos de toda a bagagem que o cinema de "terror"/suspense -juvenil- atual carrega. As propagandas envoltas da obra podem muito enganar.

Psicopata Americano

Pois bem, quando assisti, pela primeira vez, "Os Infiltrados", de Scorsese, a reação que tive ao acompanhar a primeira cena que contém a silhueta, e voz, de Jack Nicholson ao som dos Rolling Stones, foi de cutucar meu amigo ao lado, no cinema, e lhe dizer que tinha a impressão de acompanhar o nascimento de um clássico recente. E fora exatamente essa mesma reação que tomou-me quando as primeiras imagens de "Zodíaco" foram projetadas.


Quando disse que a propaganda pode enganar, ou quando citei outros filmes para fazer ponte à "Zodíaco", talvez tenha sido prepotência e precipitação por minha parte. Primeiro que não se elogia obra alguma "depreciando" outra (embora estivesse apenas exemplificando a importância do cinema de Fincher), e que o tal erro de expectativa tenha se aplicado a mim também, admito. Não estava esperando, ou preparado, para um filme tão complexo em sua narrativa e análise. Trata-se de um estudo de personagens tão fascinante que, por si só, emerge o suspense, terror, dentro do drama, nisso o filme lembrou-me, mesmo que estranhamente, "Fanny e Alexander", de Bergman. Chega a um momento que a angústia passa a ser racional, passível de frustrações. Isso faz o filme se tornar grande, e talvez até único em sua empreitada.

Que David Fincher é um excepcional diretor, isso muitos já sabem, vide seus trabalhos não tão notórios como os dois que fizeram a imagem de sua carreira, como os, no mínimo, interessantes "Vidas em Jogo" e "O Quarto do Pânico", mas a boa notícia é que o diretor, acertadamente, não se prendeu a um estilo ou um vício explícito de narrativa derivado por seus sucessos antecessores. Quando "Zodíaco" tem início parece que iremos assistir a mais um grande filme de suspense aos moldes de "Se7en", e é quando quando a narrativa vai evoluindo, diminuindo seu ritmo frenético do thriller, e mergulha cada vez mais no que envolve os assassinatos. Um trabalho de causa e conseqüência irreparável.

O tal zodíaco do título, se refere ao famoso assassino em série que apavorou a sociedade americana no começo da década de 60, mais precisamente em São Francisco, em que o perigo e medo eram iminente. Uma espécie de maníaco do parque americano, guardadas todas as ressalvas, já que o brasileiro fora capturado em poucos meses após os acontecimentos, ao contrário de um dos casos mais famosos enfrentados pela polícia ianque, até hoje. Falar o que acontece com o caso é revelar o final do filme. Não seria esse todo o problema, mas um de seus maiores charmes está incluso nesse encerramento que não apenas faz jus a todo o processo fílmico, como também faz exaltar/inverter todas as más qualidades que poderiam ser acusadas por espectadores menos atentos.

A concentração da trama na parte midiática e civil para com os crimes e não para com eles, propriamente, é admirável e é a chave para o filme funcionar tão bem em sua estrutura complexa, a partir do livro homônimo escrito por Robert Graysmith, interpretado por Jake Gyllenhaal. E falando em elenco, este também é encabeçado pelos também ótimos Mark Ruffalo e Robert Downey Jr. (excepcional no papel). O longa passeia por diversas fases das investigações do fato, ora concentrando sua narrativa em personagem X, ora em personagem Y, e assim por diante. Ainda conta as presenças dos conhecidos Brian Cox, Choë Sevigny, Phillip Baker Hall e John Terry (rosto famoso pela série "Lost", em que interpreta o pai do personagem Jack).

Funciona como uma contra-cultura que advoga em uma linha tênue entre a crítica e o descaso de um país que produz guerra. No pós-11 de Setembro e toda sua paranóia, o filme abraça, em certas circunstâncias, o ocorrido.
Seja esta na maneira como destrói a vida dos personagens através da busca, ou o fator culpa/vingança enraizado no processo, já que o assassino se revela através de cartas, códigos e mensagens subliminares, porém esse inimigo não possui face. Por mais que comparações desta conjuntura já se encaixem na denominação clichê das análises.

O filme como um todo, mais precisamente sua edição, lembrou-me bastante o trabalho de Clint Eastwood com seu "Sobre Meninos e Lobos". Os cortes pareceram-me precisos em sua totalidade, dando fluidez a obra e, melhor ainda, naturalidade quando o tempo cronológico saltava. Enquanto isso, Fincher foi esculpindo sua obra com cuidado criando um clímax que funciona muito mais como um elemento contraditório as suposições do que a própria recíproca. Por isso mesmo é também admirável sua apresentação dos fatos, respeitando a cronologia e a aura dos acontecimentos.

Como em "Se7en" nem sempre os que procuram são tão perspicazes como os procurados. Para se fazer justiça, nesse caso, há também de se recorrer a ela. As leis que incriminam são as mesmas que absolvem, já que para finalizar o pensamento de acusação, esse tem de estar de acordo com o Direito que uma sociedade validou. Ser inspirado em fatos verídicos fazem de "Zodíaco" um precursor na maneira como compõe suas análises, acusações e relatos. Em outras palavras, fazem deste, um puta filme!

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