Pela hierarquia de atualização do blog, e erro de diagramação minha, leia o post anterior, primeiro.E como prometido, mais para mim mesmo, postarei sobre "Cartas de Iwo Jima".
"Durão não é o bastante..."
Acertadamente utilizando da mesma fotografia da orla ocidental, “Cartas de Iwo Jima” começa com um plano belíssimo que dialoga de cara com seu prequel, conferindo já ali uma emoção no espectador que reconhece que está a assistir um clássico recente. É impressionante o charme que Eastwood confere a seus trabalhos. Em “Sobre Meninos e Lobos” a cena que abre o filme é também digna da obra prima que se segue, assim como este. Só grandes diretores são capazes disso, recentemente acertando a mão de novo, Scorsese atinge essa mesma sensação com seu recente “Os Infiltrados” (a cena inicial com a silhueta de Nicholson e com a trilha dos Stones é absolutamente sensacional).
Como era de se esperar, nesse filme, a visão dos acontecimentos é mais árdua, mais crua e, conseqüentemente, mais sensível. Se na visão americana do massacre a concentração da narrativa era no pré, durante e pós, aqui é muito mais (se não quase toda) no durante. Mais cansativo e sofrível, o filme acompanha com eficiência o que deve ter sido a vida dos soldados japoneses que lutaram bravamente contra o mega exército americano. Uma referência pode ser traçada com a luta travada entre as centenas de espartanos contra a esmagadora maioria dos milhares de persas. Embora, talvez essa comparação não seja suficiente ou tão apropriada quanto ao massacre no Iraque ou Afeganistão proporcionado pelos mesmos EUA de hoje.
Ken Watanabe vive o grande general que comanda a força japonesa na Ilha, que assim como seus comandados, acredita que se perder tal batalha será convite para uma inevitável invasão ianque ao país. Portanto doam-se ao máximo para suportar até onde podem, e caso morram que seja esta feita com glória (a tal conquista da honra presente aqui também).
Cinematograficamente falando, este é um retrato de guerra que impressiona mais, já que o envolvimento com os personagens presentes na Ilha é maior. Algo que Eastwood, com sua fina carpintaria, cria durante a primeira hora do longa. Ao apresentar os soldados com desenvolvimento narrativo impecável, é fácil identificarmos com cada uma daquelas vidas, algo que Clint trabalha tranqüila e acertadamente. Esquece que o que passa é um filme de guerra. E que mais tarde elucida o cuidado do diretor, pois quando começam os bombardeios, não são apenas os japoneses que são pegos de surpresa em razão brutalidade de tais, o espectador também choca-se com a realidade que o longa impõe.
É de se espantar que dois filmes tão complexos e bem filmados foram produzidos quase que simultaneamente. Eastwood é famoso por trabalhar muito rápido. Com “Menina de Ouro”, filmou tudo em 38 dias. Isso é excelente para todos admiradores da grande Arte, já que todo ano seu nome está lá inserido nas salas de cinema, lembrando que sempre há tempo para celebrarmos nossos grandes autores.
"Cartas de Iwo Jima" dá mais razão a sua escolha. Não é preciso provar mais nada. Clint é um mestre na direção, e confirma o fato com suas obras recentes, que em temas tão diversos e complexos se completam pela razão do ser humano. Em todos seus trabalhos a morte está inserida. Não à toa. Esta figura sensível sabe que o homem teme sua própria, porém sem temer as conseqüências dela mesma, o antigo valentão nos brinda com aulas de Cinema, e de vida, a cada novo projeto.

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