Ventos favoráveisEm tempos de Lost e Heroes, surgem outras figuras heróicas, e desorientadas. Há toques sobrenaturais, surrealistas e absurdos, porém estes encobertos por uma aura comum a grande maioria das pessoas, a de suas próprias vidas dentro de problemas sociais derivadas dela. Por isso, mais críveis e menos fantásticas. A tal (mini) série é a aclamada, porém menos assediada que as citadas, “Vientos de Agua”, criação do argentino Juan José Campanella que chega com menos publicidade e menor público, mas seu valor artístico é dos mais belos já produzidos pelo cinema recente.
O diretor possui prestígio e seu currículo é rico. O grande público pode reconhecê-
lo através de seu “O Filho da Noiva”, já os cinéfilos e admiradores do novo cinema argentino lembram-se dele também em “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva” e “Clube da Lua”. Sua carreia cinematográfica elevou seu potencial em reconhecimento, conseqüente a isso obteve oportunidades de trabalhar com outras formas de linguagens nas sitcoms. E pôde trabalhar justamente no país que mais as produzem. Foi nos EUA que Campanella teve seu maior contato com a forma das próprias séries, apesar de dirigir poucos episódios em cada uma delas, como em “Law & Order”, “Ed”, “30 Rock”, “House M.D.” entre outras.
Mas foi, definitivamente, com “Vientos de Agua” que Campanella equiparou de sua potência artística criativa. Divididos em 13 episódios a série foi comprada, e veiculada, pela Telecinco espanhola. Emissora essa que se interessou pelo tema que esta propõe.
É sabido, se não, saiba agora, que o cinema argentino há um bom tempo vive de louros, aqui não entra a discussão em vantagem econômica, mas de relevância artística, produzindo filmes uns melhores que os outros, e firmando-se como um pólo de bons diretores autorais em uma classe muito bem representada. Passando por Lucrecia Martel, Carlos Sorín, Daniel Burman, Marcelo Piñeyro, Fabián Bielinsky, Pablo Trapero a Alejandro Agresti, todos diretores possuem pelo menos uma obra notória, ou na maioria dos casos, obras segmentadas por uma carreira ainda bastante promissora. Pretendo ainda mais para frente abrir um post especial à discussão para com o novo cinema argentino, discutindo todos os diretores citados, inclusive. Porém aqui será breve tal lampejo.
Para entender o cinema argentino
Há alguns anos atrás, a Argentina passou por uma das crises sociais mais graves de sua história recente. Conhecido como corralito, o episódio massacrou os bolsos da população em toda a parte do país. O país acordou certo dia em colapso, diante de várias recessões econômicas crescentes, e em 1999 atingiu seu ápice quando diversos países primeiro e terceiro-mundistas passaram pelo mesmo agravamento político, como os Tigres Asiáticos, a Rússia e o próprio Brasil que desencadeou papel relevante na crise argentina. Ao desvalorizar sua moeda (real), o Brasil obrigou o país vizinho fazer o mesmo, mas o que não ocorreu. Investidores, portanto, começaram a desdenhar o país e desvalorizar seus investimentos e com sua super valorização do peso em relação à desvalorização ao dólar, financistas e o povo com temor do pior, tentaram sacar dinheiro dos bancos para convertê-lo em dólar, porém cada cidadão estava proibido de sacar mais de 250 pesos por semana. Com isso manifestações, panelaços e quebra-quebra nas ruas derrubaram quatro presidentes e obtiveram saldos sociais graves por trás de índices de desemprego jamais vistos.
A Argentina estava quebrada. Em conseqüência à crise, muitos artistas e diretores c
omeçaram a trabalhar seus filmes nas questões sociais e por assim ser, tratando dela. Muitos de formas sublimes e subliminares, um estilo que foi se seguindo até a atingir este tal cinema novo da terra de Piazzolla. Tornou-se assim um grande foco do cinema mundial, artisticamente falando, com obras que não só dialogam com o próprio país, mas que recruta toda uma situação vivida pela América, a nossa, Latina. “Vientos de Agua” são resquícios dessa crise e de uma nova ordem artística.
Com a crise muitos argentinos migraram e buscaram fora do país o que sempre tiveram em tempos menos amargos. E isso é o que há também em “Vientos de Agua”. Ernesto Olaya (Eduardo Blanco) é arquiteto de meia idade, quando também afetado pela crise tenta sacar seu dinheiro, e acaba por descobrir, como tantos outros milhares, que a ação não será possível. Em última, e desesperada, análise resolve partir para Espanha, terra natal de seu pai, Andrés Olaya (Héctor Alterio) que durante a Segunda Guerra mundial partiu pelo caminho oposto do filho e se viu obrigado em migrar da Espanha para a Argentina. Está aí o enredo da série, que conta paralelamente as duas histórias em épocas diferentes, mas que se abraçam não só pelo grau do parentesco de seus protagonistas, mas por repetir uma –quase- mesma história em razão de colapsos sociais.
A série é perfeita em uma análise mais abrangente e providencial em tempos de
xenofobia provinda de europeus que enxergam os imigrantes como grandes responsáveis por crises econômicas de seus países, ou por crises sociais em uma América segmentada. Em Vientos, há colombianos, dominicanos, argentinos, espanhóis, italianos, judeus, africanos. Todos em situações que são parecidas. Lutam pela sobrevivência em um mundo dito globalizado, mas que não produz coligação entre países e a única maneira de se viver neste velho continente é por maneira ilegal, ou então atrás de familiares que não vivem mais lá, mas que possuem o aval através de um passaporte burocrático, que apenas evidencia como as guerras os trataram há mais de 50 anos atrás.
Nesse sentido, Vientos dialoga com Lost, por exemplo. Estão todos perdidos em uma “ilha” chamada globo e o jogo de trapaças e intrigas faz com que a sobrevivência em terra estrangeira seja primordial possuir um jogo de cintura e estratégias aliando-se a grupos certos. Há de possuir também força para adaptar-se a “novos” tempos num mundo “conectado”.
A linguagem da série é mais parecida com Sétima Arte que televisiva. Talvez isso explique o índice decrescente de audiência na Espanha não acostumada, não só ela, com séries de tamanho porte. É muito mais robusta, é preciso tempo para contemplá-la para um aproveitamento mais razoável. Não é só sentar em frente à televisão com um copo de sorvete nas mãos, lembrando que esta não possui intervalos comerciais (aspecto que evidencia seu caráter mais artístico que comercial). Cada episódio dura em torno de uma hora e quinze minutos. São, portanto, treze longas muito bem realizados. Contando com três diretores e cinco roteiristas a série encontra um equilíbrio narrativo invejável em seus, aproximadamente, 975 minutos. Mesmo porque essa fora toda escrita e confeccionada por Juan José Campanella.
Possui um time de atores talentosos, a começar pelo veterano Héctor Alterio e seu filho Ernesto Alterio (que o vive mais jovem). Ainda conta com Eduardo Blanco (figura carimbada nos filmes de Campanella), a jovem colombiana Angie Cepeda, Pablo Rago, a italiana Giulia Michelini, Valeria Bertuccelli e a francesa Caterina Murino, rosto familiar agora por ter sido escalada como uma das bond girls do novo filme da série 007, com Daniel Craig.
E ainda temos de falar de sua música, que é tão sublime como a própria série. Composta por Emilio Kauderer, a música como todo belo tango é penetrante e vibrante, sendo impossível não ficar emocionado com a belíssima criação.
Saldos da chuva
A conclusão mais óbvia é a de que nossos vizinhos portenhos possuem uma maturidade enorme em enxergar e trabalhar seus próprios problemas. São precisos e não apelam para a dramaticidade ao extremo, pelo contrário, como todo bom vinho, são mais secos. Algo que nós, brasileiros, precisamos urgentemente tomar como lições provindas da terra do tango. E toda essa classe é transpassada em tela com episódios que são verdadeiras aulas de direção e condução.
Veiculada no Brasil pela HBO, que exibiu seu último capítulo ontem, a minissérie conquistou públicos e críticos em diversas partes da América, até porque sua premissa não faz concessão alheia a seus vizinhos. Falando em HBO, emissora essa que notadamente vem produzindo diversas minisséries com apostas no cinema latino americano. Vide as brasileiras de grande porte, “Filhos do Carnaval” e “Mandrake” ou a própria argentina, “Epitáfios”. É sempre muito interessante ver tantas obras relevantes em um continente tão rico como o nosso.
Mas fique ligado, pois “Vientos de Agua” é melhor que todas essas, no mínimo excelentes, que tratam de assuntos tão corriqueiros a nós. Fazia tempo que uma série não me conquistava por completo. Tive a sensação em “Filhos de Carnaval”, mas a intensidade agora é muito maior. Não perca de jeito nenhum o exercício artístico que é “Vientos de Agua”. Obras primas assim são difíceis de encontrar tão completas e livres de concessões burocráticas que as limitam. São ventos favoráveis à classe artística latino-americana, ventos esses que indicam chuva de criatividade e inteligência.
E Vientos prova que a Arte pode ser maior, ainda hoje.
Um comentário:
Parabéns pelo post! Estava a procurar a trilha sonora, e fui encaminhada para esse belo blog.
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