segunda-feira, 4 de junho de 2007

entre o céu e a terra

Quando postei sobre o filme "Zodíaco", disse em algum lugar que David Fincher é um dos americanos mais interessantes que filmam, hoje. Também li em vários lugares isso, inclusive em Cannes a sensação é a de que Fincher é "o melhor", ou então divide-se esse trono com Michael Mann. O que acontece é que somos imediatistas e esquecemos muitas coisas, ou pessoas. Evitei ao máximo dizer que Fincher é o maior e melhor, hoje em dia. Para mim, antes dele há Clint Eastwood, por exemplo, que mesmo com 79 anos de idade, ainda faz cerca de um filme por ano. E esses, no mínimo, interessantes. Foi nessa tomada de consciência que decidi escrever sobre o cinema atual de Clint. Primeiro com "A Conquista da Honra", depois pretendo falar sobre "Cartas de Iwo Jima", que forma o díptico. Enfim, sem razão muito óbvia ou motivo aparente, eis que surge esse filme em minha mente!


A Outra História Americana

Clint Eastwood é um dos maiores diretores em atividade, talvez o maior dentro do cinema norte americano. Esse título pode lhe ser -talvez errôneo e equivocadamente- atribuído em razão de uma vontade de subjugar ou relativizar seu trabalho para colocá-lo em um prisma que possa ser melhor administrado em um entendimento coletivo. Porém, a figura de Eastwood bate de frente com essa preocupação, sendo este –hoje- um sujeito mais preocupado com o processo, com a criação, e por assim ser com a curiosidade de se fazer cinema do que com tal arquétipo.


E arquétipo este, a que o próprio condenou-se nas décadas passadas, compondo uma carreira pontuada dentro de um cinema americano, sempre travestido e associado à persona do valentão. Essa figura bruta, porém, esfacelou-se dando cara e razão para uma nova fase de sua carreira em que Eastwood dedica em dirigir projetos que contenham um único gênero: o ser humano.


E especialmente nesse novo, e digno projeto, essa preocupação com um título é desvencilhada. A figura dos heróis é confrontada com a razão dos próprios em um mundo carnal. Eastwood afirmou que sua intenção não era a de associar a 2ª Guerra Mundial com o que ocorre hoje no Iraque, porém pode ser assim relacionada, admitiu. Na Era Bush filho, com a queda dos gêmeos sentimentos da segurança e da prepotência, a poeira da vulnerabilidade empesteou a “América” e seus heróis ruíram-se juntamente com a fragilidade coletiva. Super homens, homens aranhas, capitães América e outras figuras lendárias patrióticas deram lugar a um lugar-comum, o do medo de não podermos contar com a lenda, mas apenas com o "próximo". O fato de o ser humano ter a necessidade de contar uns com os outros é frágil, não por substituir a pele do herói, mas para entender que os heróis, antes de tudo, são humanos e criação própria. Mudar esse conceito é talvez o processo mais difícil, e Eastwood, sabendo disso, trabalha o rito em “
A Conquista da Honra”, que forma o díptico com “Cartas de Iwo Jima”.


O diretor não apenas costura uma obra que desmistifica a figura do herói, mas também dá face ao inimigo. Apenas nessa empreitada de imparcialidade, os filmes já merecem ser reverenciados, mas suas grandes qualidades fazem desses, além da notoriedade, uma rica experiência proporcionada por um grande cinema.


Aqui, na visão norte americana dos ataques à ilha de Iwo Jima, Eastwood compõe um longa de guerra digno de diretores consagrados. Lembra a visão que Oliver Stone imprimiu em “
Entre e o Céu e a Terra”, lá recordando o Vietnã. Um filme de guerra que ao mesmo tempo em que a reconta, critica-a, numa fase em que Stone era um dos mais críticos à cultura norte-americana e que mais tarde, sem sinais claros, esse mesmo diretor realizou o docudrama imparcial e inóspito "Torres Gêmeas".


Voltando ao cinema de Eastwood. Uma foto pode ganhar uma guerra sendo elemento interpretante a um acontecimento isolado que solidifica todo o contexto inserido. A tal foto, é uma das mais conhecidas pelos ianques; aquela na qual há um grupo de cinco ou seis homens cravando a bandeira da "América" em território inimigo. Antecipando uma filosofia que viria a se intensificar mais tarde durante a Guerra Fria; qualquer tipo de arma é válido para tal honra da pátria. E esta, no caso, é uma imagem. Mais poderosa que qualquer ameaça, é por si só manipuladora.


Na narrativa, o filho de um dos militares atuantes no exército norte-americano vai atrás de informações que seu pai nunca antes havia lhe contado. Em flashbacks mostram-se os campos de batalha e a vida desses soldados no pós-guerra, meses depois dos confrontos sangrentos em Iwo Jima. Muita gente vem torcendo o nariz para “A Conquista da Honra” sem antes assisti-lo julgando o que não sabem, porém não é apenas necessário este longa para assistir o aclamado “Cartas de Iwo Jima”. É primordial para entender a visão plural desse diretor tão sublime. Um não se completa sem o outro. Longe de ser um jogo de marketing como Tarantino fez com seu “Kill: Bill”, dividindo-o para lucrar em dobro, Clint dá voz ao derrotado em diferentes filmes que se completam, seja pela estética ou pela mensagem.


Eastwood, como dito, possui técnica de mestre e filma como um deles. O charme em suas obras foi elevado a partir dessa nova fase, que se iniciou com “Sobre Meninos e Lobos e “Menina de Ouro”, ambos grandiosos. E a partir dessa sensibilidade, seu trabalho agora é com a razão de ser do ser humano, nascendo assim uma das figuras mais sensíveis do cinema em atuação.


Por fim, “
A Conquista da Honra
é mais que um excelente filme de gênero, é um estudo da alma humana e seus maiores medos e frustrações em tempos de Bush. E tempos esses, que dialogam com o período da segunda grande guerra. E tudo isso saindo de um diretor de 79 anos de idade, mais em forma -e atual- que nunca. É gratificante ter mestres ainda atuantes no mercado cinematográfico.

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