quarta-feira, 25 de abril de 2007

Antes que termine o dia

Só queria deixar registrado um parabéns à Al Pacino. Hoje o rapaz completa 67 anos.

Depois de "O Poderoso Chefão I, II e III", "Scarface", "Serpico", "Um Dia de Cão", "Perfume de Mulher", "O Pagamento Final", "Fogo Contra Fogo", "O Advogado do Diabo", "O Informante", oito indicações ao Oscar e outros filminhos bacanas no currículo, Pacino possui carreira promissora pela frente... Com um pouco mais de experiência pode até se tornar um ator razoável. Confio no garoto!

Wuuurra!

Uma breve atualização apenas para constar a admiração que possuo por Al Pacino. Um dos atores da atualidade que considero um grande monstro do cinema, é o espanhol Javier Bardem. A razão por isso seria na óbvia admiração por sua atuação em "Mar Adentro", que é excelente, sem dúvidas, mas ao contrário disso, o filme que, para mim, Javier mostra verdadeiramente o estupendo ator que é, está em "Segunda-Feira Ao Sol", onde interpreta um sujeito absolutamente comum, e daí sua genialidade na condução de tal. Sua performance marcou-me muito, e quando penso em fazer teatro ou aula de interpretação, já que gosto do cinema como um todo e pretendo realizá-lo assim também, é muito baseada em Javier em tal filme. Acredito que o menos, muitas vezes, é mais.

Toda essa longa introdução só serve como premissa para que eu volte a falar sobre Al Pacino. Por que? Pela simples razão dessa frase dita por Javier Bardem:

"Um dos meus sonhos tornou-se realidade quando Julian [Schnabel] mostrou o filme ["Antes do
Anoitecer"] para Al Pacino, e ele me ligou às 3 da manhã, no horário da Espanha, e disse que gostou de minha performance. Eu disse à ele `Eu não acredito em Deus, eu acredito em Al Pacino´."

Engraçado isso, não é só para nós, espectadores, que Al Pacino é uma espécie de "mito" do cinema atual, para os grandes atores, ele também o é.

Grande Pacino...
Parabéns mais uma vez!

segunda-feira, 23 de abril de 2007

The Golden Trailer Goes To...

Sou um grande admirador do trabalho das pessoas que editam e produzem trailers de filmes. É, com certeza, um grande objeto a ser estudado e, ainda, muito pouco explorado, tendo em vista sua capacidade de alcance mercadológico e dramático, e isso em "apenas" dois minutos de exibição em média. Lógico que estes estão mais enfraquecidos por interesses que pouco têm a ver com a arte em si. Mas não entremos na questão de que os interesses mercadológicos são maiores que os artísticos, e quem os produzem, hoje, parecem ser executivos que não sabem o que é respeito nem do que se trata a Sétima Arte.


O importante é esse purismo que ainda alimenta a paixão dos cinéfilos por todo o globo. E com essa ingenuidade admito ser uma pessoa que adora assistir trailers no cinema, ou baixá-los para saber o que esperar daquele filme tão aguardado. Acho muito bom antes de assistir tal longa nos cinemas, conferir o que vêm por aí através dessa mídia tão poderosa que é o trailer. É com esse espírito que fico entusiasmado ou emocionado com certo trailer tão bem realizado, ou decepcionado com certa prévia de tal filme tão aguardado. Lembro da emoção quando vi pela primeira vez o trailer de "King King" nos cinemas. "Scream! Scream for your life!"


E com todas as pessoas que conversava, que também admiravam os tais trailers, sempre reclamavam da pouca importância (artística!) que possuem, sendo que não há nenhuma premiação voltada a categoria.


Ou melhor, não havia!

Pois bem, descobri hoje o tal evento que premia os melhores na categoria todo ano. Trata-se do Golden Trailer Awards, que este ano embarca em sua oitava edição. Ocorrerá no dia 31 de Maio, em Nova Iorque. Os prêmios são distribuídos em categorias, como “Melhor Trailer de Filme de Ação, Animação, Drama, Terror”, e assim por diante. Trailers dos filmes como “Boa Noite, Boa Sorte”, “Match Point”, “Missão: Impossível III”, “Marcha dos Pingüins” foram os premiados do ano passado em sua 7ª edição.


Aposto que para esse ano, na categoria de Melhor Trailer de Animação, vença a ótima prévia do novo filme dos Simpsons!


Vou postando, portanto, assim que possível, alguns trailers que chamem a atenção de certa forma. Um que chamou-me bastante atenção recentemente, é o novo de “Homem Aranha 3”. Não estava esperando muita coisa do filme, até assisti-lo. Mais uma vez comprovando o poder que um bom trailer pode exercer em seu espectador.


Mais que merecida essa premiação para os profissionais que produzem excelentes trailers.

Isso é Gotan Project!

Para aqueles que leram um post anterior, no qual comentei a respeito dessa banda, os tais Gotan Project, sabe da admiração que possuo por eles. Agora com esse vídeo, gravado no Festival de Montreux 2006, a razão dessa paixão talvez possa ser melhor interpretada. A alquimia sonora proporcionada ao vivo é ainda mais empolgante. São realmente talentosos esses rapazes!

Isso é Gotan Project!


Música: "Diferente" (Lunático - 2006)

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Fora Bush


Só precisamos nos certificar de que essas armas não caiam nas mãos de pessoas erradas.


Há dois anos no Brasil, ocorreu um referendo sobre a proibição do comércio de armas de fogo, os votos eram baseados no `sim´ e no `não´. Simples: sim, para o desarmamento, e não, para o não desarmamento. Venceu o não. Na época, e até o hoje o pensamento por trás da vitória fora de que não podemos nos desarmar, já que isso acarretaria numa completa entrega contra todos os bandidos e marginais (muito bem armados e munidos) que poderiam com isso fazer o que quisessem conosco.


Agora, mais precisamente antes de ontem, ocorreu um novo massacre nos EUA que mais uma vez fez vítimas em números grandiosos, no caso, o maior registrado no país. A tal chacina não foi cometida por bandidos, delinqüentes, terroristas ou inimigos da sociedade. Foi executado por um civil, o sul-coreano Cho Seung-hui. Os donos do poder na Casa Branca nada falaram em respeito ao horror ocorrido. Na verdade falaram. George W. Bush disse estar “horrorizado” e nada mais. Lógico, está mais preocupado com a política externa que interna do país. E a frase dita no começo do texto, poderia, mas não pertence a políticos, personalidades ou civis brasileiros, fora em vez disso, proclamada pelo senador republicano John McCain (candidato à reeleição norte-americana), com posição intransigente em relação à Segunda Emenda, que dá o direito de qualquer americano portar armas de fogo.


Ontem, na capital carioca mais uma vez a guerra entre traficantes e policiais deixou um saldo de 25 mortos (até agora). Aqui, tais notícias são rotina, não chocam mais. Esse é um dos verdadeiros problemas em nosso país. Fechamos os olhos para o ocorre em nosso país, e ficamos horrorizados com o nosso mundo. George W. Bush fez uma visita rápida ao Brasil, e no dia que ficou hospedado em terras tupiniquins, houve manifestações, quebra-quebra, depredações e arrastões. Isso porque somos muito socialistas e corretos. Mas essas mesmas manifestações ficam caladas e não assumem caráter algum quando em nosso próprio país, são eleitos Collor, ACM, Maluf, Enéas e outras personas mais perigosas a nós que o presidente americano. Mas para fazer bonito, nosso discurso político é antiimperialista, sendo que no Brasil mais gente morre de fome que em Guerras como a do Iraque, o preconceito contra homossexuais, negros, orientais, islâmicos, idosos é o mesmo que no primeiro mundo. E mais ainda, muitas das pessoas que são ariscas a persona de Bush (e sua política) votaram no Não no referendo, fazendo valer a mesma lei da bala outorgada pelo governo norte-americano em sua Segunda Emenda. Mas isso fazemos questão de omitir. Para muitos brasileiros existe o poder e o eixo do mal, que são os ianques. Em outras palavras, atacamos outras nacionalidades e esquecemos-nos de cuidar da nossa. Já vi isso em algum lugar (ou país).


Ontem protagonizei uma cena que é muito comum de se ver. Um bêbado estava no meio das ruas xingando a todos que passavam pela mesma calçada que se encontrava o pobre coitado cambaleando, e quando foi atravessar a rua chegou a parar o trânsito e reclamar dos motoristas. A violência neste caso não é física, mas psicológica. Incomoda ver tal ação protagonizada por um sujeito que não possui mais esperança em nada e está entregue a um destino que todos sabemos. O que faz passarmos por ele, fingindo ser ele um ser invisível é que para nós isso não é “problema nosso”. Porém se este mesmo sujeito portasse uma arma a situação seria outra. O problema seria nosso. Criamos um escudo para o que não queremos enfrentar.


Quando, finalmente, a sociedade estiver desarmada, o bandido não irá fazer a festa aqui como pensam sociólogos da classe média, mesmo porque ele nunca obteve o convite para entrar em tais festas. Aqui, em São Paulo, há um ano atrás, o PCC tomou conta da cidade durante quase dois dias completos, declarou-se na ocasião estado de emergência até, e pelo que me lembro ninguém saiu nas ruas os enfrentado com suas próprias armas e seus direitos em reivindicar a violência através dela, esta devidamente lícita pelo voto que se validou através do referendo. A questão é outra, nós já estamos munidos de muito mais armas que eles. Nossa principal arma contra os bandidos não é, e nunca serão as armas. São nossos carros, nossos salários, nossas rendas tão díspares de um salário, que é mínimo. Nossas armas são nossos vidros blindados, nossos shoppings centers, nossos cartões de crédito, nosso preconceito, nossas vergonhas de enfrentarmos a situação, nossas escolas, nossas roupas, nossas comidas, nossos sonhos de consumo, nossos estilos de vida, e nossos votos. Nós somos a causa, eles a conseqüência. Essas armas que possuímos são numericamente muito superiores (e eficientes) que qualquer arma física. O perigo maior é aquele que não possui face, que ataca calado e constantemente, como um câncer. O estrago é monumental e crescente. Somos nós que construímos e mantemos esse apartheid econômico perverso.


Já chegou o momento de olharmos para nossa situação para encará-la de frente, e não usar o modelo norte-americano como o mais perigoso e perverso de uma civilização recente. Enquanto ficamos horrorizados, homologamos o comércio de armas e munições, e estudamos o comportamento subversivo de Suzanes Richthofens e de Cho Seung-huis, sendo que o verdadeiro foco do problema não está contido –apenas- no comportamento de tais jovens. Ficamos horrorizados com as mais de trinta mortes na faculdade americana, e banalizamos qualquer situação que se ocorre em qualquer “beco” de nosso país. E por fim, somos tão hipócritas quanto George W. Bush que se diz horrorizado com o massacre nas faculdades, e que logo depois mata milhares no Oriente Médio sem culpa e horror algum.

Estamos confundindo as críticas, os EUA é aqui.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Entre Quatro Paredes

O cinema contém um gênero específico que é o estudo da alma humana, mais precisamente o da relação heterossexual. Por mais que livros, programas, casos, histórias, peças, contos, filmes utilizem-no para discutir, parece tema inesgotável. Lógico, que não só no “universo” (odeio esse termo) heterossexual que se abrange a discussão, e sim todas as relações amorosas. Desde “Romeu e Julieta”, "Brokeback Mountain" a “Os Normais” o tema é abordado por variados prismas, que os desenvolvem, mas chegam a mesma conclusão, a de que não há uma simples conclusão. No cinema, alguns filmes se sobressaem em tal incursão psicológica. Numa terapia de casais proporcionada pelos próprios pacientes, “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr do Sol” são exemplos notórios recentes, de que há maneiras de abordar o tema com criatividade e muita inteligência. Lá um casal de turistas recém conhecidos sai em ruas dentro de um país desconhecido e começam além de descobrir a geografia física dos lugares, a si próprios também. Na conversa nasce a química invejável e apaixonante do filme. Num tema tão simples e batido, é feito dois grandes filmes. Porém não estou para analisar os filmes de Richard Linklater, mas sim o lançamento, “Na Cama”, que se assemelha nas metáforas e no tema.

Essa imensa introdução fora apenas para situar o lugar que se encontra a fita chilena ganhadora de vários prêmios internacionais, inclusive o representante chileno ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O filme segue os padrões acima citados, mas de maneira um pouco menos informal e o espectador já deduz isso pelo título. Pode-se fazer a associação ao sexo. Este já começa com uma cena debaixo dos lençóis (literalmente). A partir do sexo, com o desconhecido, nasce uma relação mais íntima, aqui não no sentido obviamente físico, mas sentimental e por assim ser, muito mais penetrante e suada. A nudez psicológica aqui é muito mais constrangedora que a física, e é o que parece dizer o filme de Matías Bize. Em um quarto de motel (o filme todo se concentra dentro das quatro paredes) tudo acontece, e os personagens sairão pessoas diferentes do que entraram, com certeza. Isso dá espaço a ótimos diálogos e conversas pertinentes sobre o mundo de hoje. O curioso é observar que quando se fala das questões amorosas e do sexo, fala-se da vida em si, já que hoje (não só hoje) tudo parece girar em torno, e pertencer ao sexo. Há cenas de sexo, não explícito, mas quase. Nem precisava, são tão reais essas que muitos filmes pornográficos podem invejar por não atingirem resultados tão críveis, e sinceros.


Como em Antes do..., “Na Cama” também há a conclusão de que o homem é sim ingênuo e mais complexo que possa imaginar, e a mulher mais complicada e também mais simples que se supõe. Um não entende o outro. A tensão sexual é presente em todo momento, e o espectador menos atento pode banalizar tais fatos e achá-los enfadonhos e “clichês”, mas qual amor não é? Como cinema, o longa funciona bem num exercício interessante de relacionamentos. Lembra muito os filmes acima citados, por essa razão o resultado não seja tão apaixonante e vibrante à primeira vista, mas mesmo assim é inteligente o suficiente para ganhar vida própria. Batido e cheio de lugares comuns podem ser alguns seus adjetivos, mas qual relação amorosa que não é assim, afinal?

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Apocalipse Now

O que mais impressiona no novo trabalho do mexicano Alfonso Cuarón, é sua brilhante direção. Muitos conseguem essa proeza por diversas maneiras. Uns são discretos (Clint Eastwood), outros eloqüentes (David Fincher), realistas (irmãos Dardene), dinâmicos (Michael Mann) e assim por diante. Todos eles são grandes diretores, mas o são em suas particularidades. Já Alfonso Cuarón, em seus trabalhos anteriores, nunca demonstrou um estilo tão próprio, mas é em “Filhos da Esperança” que se revela um diretor fantástico em suas concepções. Com planos, no mínimo, inteligentes, Cuarón pontua sua obra (prima) com diversas seqüências que desafiam a lei cinematográfica de planos simples e eficazes (leia-se: clichês) em cenas de ação, e transcorre um caminho inverso e perigoso, de intensa orquestração e plasticidade, que com certeza, custou ensaio e planejamento excessivos. Não quer dizer, porém, que Cuarón chama toda a atenção para si. Ou melhor, o roteiro não o permite tal exercício egocêntrico. Este é bom o suficiente para dividir a atenção de um público atento a técnicas cinematográficas.


Filmes sobre o fim dos tempos existem muitos, mas tão críveis e eficazes sem serem engolidos pela própria megalomania apoteótica, são poucos. “Guerra dos Mundos”, a visão apocalíptica de Spielberg que muitos torceram o nariz, lembra até “Filhos da Esperança” (que, aqui, pela história é muito mais próxima a “Os 12 Macacos”). Gosto bastante daquele filme (mas reconheço que “Filhos da Esperança” é maior cinema) e aprecio diversas cenas muito bem dirigidas por Spielberg, que também é grande diretor. Em uma delas, em especial, remeteu-me a “Filhos da Esperança”. É quando Tom Cruise sai em disparada dirigindo um carro, junto com seus dois filhos em uma cidade destroçada. O caminho torna-se menos fluente em razão de destroços, carros capotados e pedaços de concreto na pista em uma cidade em pane, o que torna a cena ainda mais tensa. Mas o importante é a mão de Spielberg nela. Lá o diretor conduz sua câmera com inteligência, há momentos em que a câmera entra e sai do veículo, em movimento, num plano-seqüência muito bem orquestrado. Lembro de ter ficado entusiasmado com a inteligência cinematográfica de Spielberg. Agora ao assistir “Filhos da Esperança” uma cena parecida também ocorre, mas o resultado é diferente. O plano-sequencia concebido por Cuarón é absurdamente eficaz. Dura em torno três longos minutos em que ocorrem diversas ações cruciais a narrativa. Ou seja, não se trata “apenas” de um plano estupendo e um exercício plástico magnífico, possui valor e fluidez narrativa. O resultado é inexplicável, só mesmo conferido em tela. Quando você assistir, se é que já não assistiu, com certeza, saberá qual é. Esse é só um dos exemplos dos grandes planos (seqüências, em sua maioria) existentes no filme, que elevam seu valor cinematográfico.


É uma das coisas mais belas de ver. A história? Vou apenas parafrasear uma mulher que ao ser abordada por sua amiga, que a esperava do lado de fora da sessão, respondeu com um suspiro prévio, “o filme é triste, mas muito lindo”. Triste, com certeza, mas bota lindo nisso!

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Cinemarketing

Fui assistir ao filme "Ó, Paí, Ó" ontem no cinema. Fomos, eu e mais um amigo, ao Shopping D devido a horário e localização. Ao chegarmos lá, a fila estava pequena, ainda bem, já que chegamos em cima do horário. Foi quando ao comprarmos o ingresso para tal sessão que deparamos: será que compramos para o filme certo? Será que pronunciamos certo? Será foneticamente pronunciado "ópainho", ou "ópaíó" como um "olha para aí, olha"? Mas isso já não importa mais, pois no ingresso estava escrito simplesmente, "É, Pai, É". Ao rirmos, junto com a atendente que sabia que nada podia fazer a não ser rir da própria empresa que trabalha, constatamos que até nos teclados a letra E está bem longe da letra O. Portanto, o erro é mais que de digitação, é de atenção. E mais, de falta de respeito com o produto que estão veiculando.


Se o erro fosse de acento, ou com a posição da vírgula, até entenderíamos já que tal pronúncia é mesmo mais complicada, porém "É, Pai, É" já é demais. Mas, pelo menos, da próxima vez irei pedir o ingresso para o filme "200" e depois para o "Ciclista Fantasma", e talvez me entendam, não acham?

A arte:




Filhos do Carnaval

O carnaval tem de ser um evento mais generoso com a população. A idéia do Pipocão é democratizar a folia. Chega de abadás e cordas. Precisamos ter outras idéias para o carnaval de Salvador.”. A frase foi dita por Carlinhos Brown quando se apresentou no carnaval na capital baiana deste ano. O filme “Ó, Paí, Ó” parece seguir essa crítica. É provável que não conquiste o público Globo wanna be, até mesmo por se tratar de um exemplar mais corajoso e sincero. Sincero em mostrar realmente do que é feito o carnaval em Salvador, com sexo, suor, samba e negritude. Por isso, corajoso. O filme é carnal, é muito mais sentido e feito com pele que cosméticos que maquiam as transmissões nas passarelas brasileiras para gringo ver.


O filme pode causar certa estranheza e o grande público talvez fique um pouco receoso com tal linguagem, mas a adaptação não demora muito e quando acontece se verá conquistado por uma história cativante, sincera e dançante (a trilha sonora é outra de suas qualidades). O texto vem da peça teatral de Márcio Meirelles e a adaptação é bem feita, apesar de alguns atores acharem que ainda estão no palco, gesticulando e gritando um pouco a mais que o cinema pede. Mas isso não estraga a boa experiência que “Ó, Paí, Ó” proporciona. O elenco é forte. Encabeçado pelos (sempre) excepcionais, Lázaro Ramos e Wagner Moura, conta também com Dira Paes e com o grande Stênio Garcia em papel menor, mas essencial, ainda há espaço para outros menos conhecidos, mas talentosos atores.


A história acompanha diversas personalidades pelo pelourinho, numa espécie de “Magnólia” da Bahia. O filme de Monique Gardenberg é potente e dialoga com uma situação enfrentada pelo Brasil que é o carnaval e suas diversas faces. Não é só de samba, bunda e festa que se faz o carnaval. Em baixo dos trios elétricos há euforia, hormônios e festa, mas também há tristeza, miséria e pessoas carnais, de verdade.


Em uma das cenas que para mim já entra como uma das mais fortes do cinema nacional de 2007 é quando o personagem de Wagner Moura confronta Lázaro Ramos chamando-o de negro em tom depreciativo. Lázaro responde. Mas o faz com a alma, arrepiando em uma atuação visceral em que cala a boca do racismo. Um dos maiores orgulhos do cinema nacional traduziu-se em cena atuada por um dos maiores atores dessa geração. Em tempos, o racismo nunca fora tão confrontado em tela, no Brasil atual.


Assista e confira que ainda há espaço no Brasil para o cinema que pensa.


No serviço de auto-falante
No morro do pau da bandeira
Quem avisa é o zé do caroço
Amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira


Ai Como eu queria que fosse mangueira
Que existisse outro zé do caroço
Pra dizer de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz é madeira
Mas é morro do pau da bandeira
De uma vila isabel verdadeira


É o zé do caroço trabalha
É O zé do caroço batalha
E que malha o preço da feira
E na hora que a televisão brasileira
Destrói a gente com a sua novela
É que o zé bota a boca no mundo
E faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

Está nascendo um novo líder
No morro do pau da bandeira

(Leci Brandão)

Sobre Meninos e Lobos

Um grande filme! Esse é o primeiro filme de De Niro na direção. Claramente inspirado no jeito de se filmar de Martin Scorsese, “Desafio No Bronx” possui todo um clima que é peculiar ao diretor de outros grandes filmes de gângsters. Em época de lançamento de “O Bom Pastor” é hora de (re)ver a primeira incursão de De Niro por trás das câmeras. Dedicado ao seu pai, falecido no mesmo ano de lançamento, 1993, o filme carrega muito essa relação pai/filho, muito bem talhada dentro de um sensível (e potente) roteiro.

Começa com um off que já puxa o espectador ao filme num jeitão de clássicos do início da década de 90. De Niro vive o motorista de ônibus, Lorenzo Anello, pai de uma família humilde no tal Bronx do título. A família é sua maior conquista e seu filho, Calogero Anello, interpretado por dois atores estreantes, é essencial ao desenvolvimento do longa. E é bom dizer, os dois que o representam fazem muito bem suas partes. O tal bairro é palco de um grupo de mafiosos que parecem o controlar, adquirindo respeito com o medo alheio. As crianças são observadoras e percebem que estes são os mais sucedidos, o que torna perigoso para seus pais com seus valores. O simples enredo que parecia ser sobre gângster, revela-se mais sobre valores familiares e honestidade. O rito de passagem para tal é a chave para que o filme funcione tão bem.


No longa, há diversas estréias; do próprio De Niro como diretor, Chazz Palminteri como roteirista, e que vive a persona do mafioso Sonny, Francis Capra, carismático e perfeito no papel de filho de De Niro aos 9 anos, e do ator colombiano Lillo Brancato, como o mesmo filho, mais velho, com 17 anos. Todos se saem muito bem, e o resultado é um filme conciso, maduro e potente. Há belas cenas, excelentes diálogos e situações pertinentes que discutem além do que a premissa propõe (não direi quais são para não estragar a primeira impressão).


Um grande filme mal divulgado no Brasil, apesar de ter sido lançado pela “Videoteca da Folha” anos atrás em VHS. Em DVD, sua edição é pobre e mal trabalhada numa péssima qualidade. Mas não importa, o filme continua poderoso.


Filho de peixe...
O que chamou-me bastante atenção também, fora a semelhança encontrada entre ator que interpreta seu filho (aos 17 anos) e Robert De Niro. O ator em questão, é o colombiano Lillo Brancato. Reparem que até a pinta, ele possui de De Niro, só que em lugares diferentes da face. Mas a fisionomia achei bem parecida dos dois. Além de bom ator a escolha pareceu-me bem feita.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Jogo de Espiões

No Festival de Berlim de 2006, em entrevista coletiva pós lançamento de seu longa, “O Bom Pastor”, De Niro se esquivou das perguntas que faziam analogia de seu filme aos EUA de Bush, atual. Disse que não teve a intenção de discutir política de hoje, isso num filme que conta o nascimento da CIA, a maior agência de inteligência americana. Se é ou não político, o espectador deve concluir por si só, mas o que interessa aqui é comentar a respeito desse brilhante longa com porte de clássico recente.


Parecia que De Niro tinha esquecido o que era verdadeiramente fazer um grande cinema. Depois de anos em inércia criativa repetindo seus cacoetes em papéis menos profundos daqueles que remetem a imagem do grande ator que é, De Niro pareceu estacionar sua carreira com personagens irrelevantes que só traziam o peso de seu nome junto ao elenco (e a sua conta bancária).


Agora o velho Bob volta com seu segundo trabalho atrás das câmeras (“Desafio no Bronx”, de 1993, foi sua estréia) e prova que seu valor artístico continua o mesmo daquele que pontuou toda sua carreira como ator. Antes de tudo, é bom esclarecer, por mais que De Niro fuja das comparações ao Estados Unidos atual, o roteiro fora escrito por Eric Roth. De nome talvez você não o reconheça, mas dos filmes “Munique”, “O Informante” e “Ali” você se lembra. Pois aí está seu roteirista. Citei-o apenas para duvidar do tom apartidário do roteiro, vide seus trabalhos anteriores. Inclusive, “O Bom Pastor” dialoga com “Munique”. Nos dois filmes, discute-se o passado e faz-se uma analogia para com a situação geopolítica atual, ou melhor, fica subentendido em seus finais que a situação atual é só uma conseqüência de fatos e ao adicionarmos algumas décadas em seus tempos, entenderemos onde estamos. Resumindo: seus temas são muito maiores que aparentam.


E já que o citei, este me lembrou bastante “Munique”. O longa de Spielberg é mais dinâmico, mas não os associei pela narrativa, e sim pelo que tratam. O assunto de “O Bom Pastor” é providencial e De Niro dirige tudo sem pressa, confeccionando uma obra que já se torna notória pela grandiosidade que carrega em valores cinematográficos. A edição de Tariq Anwar é de grande auxílio para tal, sendo espetacular ao mesclar as diferentes épocas com inteligência narrativa.


De Niro talhou sua carreira ao ser dirigido por grandes diretores. Entre eles, Scorcese, cuja parceria rendeu, até hoje, nove filmes. Se em seu filme anterior na direção, "Desafio no Bronx", De Niro captou o universo Scorcese de se filmar, aqui parece se inspirar em outro diretor. "O Bom Pastor" tem mais o estilo Sérgio Leone e/ou Coppolla. Com cenas e enquadramentos sensacionais, De Niro parece ter aprendido a lição com seus mestres e filma como um deles. É incabível pensar, portanto, num descaso para com seu filme em quase todas as premiações, mas pode entender tal subestimação por sua longa duração; 167 introspectivos minutos. Mas tempo aqui não é importante, poderia ter muito mais, pelo grande cinema que é. “Era Uma Vez Na América” de Sérgio Leone, com o próprio De Niro como protagonista, possui intermináveis 229 minutos, e mesmo assim isso não o enfraquece de modo algum, pelo contrário.


É provável que o grande público não compreenda muito De Niro como diretor, que faz um filme com ritmo lentíssimo para o padrão MTV, voltando às origens de grandes clássicos épicos do cinema americano, como “O Poderoso Chefão”. E por falar em trilogia, De Niro pensou em seu “O Bom Pastor” como o primeiro de uma trilogia. Ainda acompanharíamos a CIA na época da queda do Muro de Berlim, e em sua terceira parte, no pós-11 de Setembro. Torço demais para que o projeto se concretize. Porte para tal possui.


Aqui, conta-se a história do nascimento da CIA, desde o começo da década de 1940 até a década de 60, com Matt Damon como protagonista. Está muito bem, inclusive. Seu personagem é contido, misterioso e introspectivo, o que o torna ainda mais interessante. Alec Baldwin, Willian Hurt, Angelina Jolie, Billy Crudup, Michael Gambon, John Torturro e o próprio De Niro estão também no elenco. Todos muito bem, diga-se de passagem, mas o destaque fica para a participação especial de Joe Pesci, revivendo uma grande parceria e de volta às telas depois de um hiato de oito anos. É bom ouvir sua voz típica, em tela novamente.


Não perca “O Bom Pastor” que ainda está nos cinemas, mas parece não agüentar muito mais, já que isso depende do retorno da bilheteria, o que deve não ocorrer por se tratar de um filme muito mais complexo e introspectivo que “300” e “Motoqueiros Fantasmas” da vida. Mas de todo modo, a dica é conferi-lo ainda nos cinemas com todo seu poder de imersão, para poder apreciar a grande obra em tela cheia, e, assim, não perder nenhum detalhe de seus brilhantes planos.


De Niro demorou dez anos para a concepção de “O Bom Pastor”. Tomara que não demore mais uma década para que surja o próximo. Mas se ocorrer, a espera valerá à pena, tendo em vista a obra que nos entregou.


segunda-feira, 2 de abril de 2007

Vientos de Agua

Ventos favoráveis

Em tempos de Lost e Heroes, surgem outras figuras heróicas, e desorientadas. Há toques sobrenaturais, surrealistas e absurdos, porém estes encobertos por uma aura comum a grande maioria das pessoas, a de suas próprias vidas dentro de problemas sociais derivadas dela. Por isso, mais críveis e menos fantásticas. A tal (mini) série é a aclamada, porém menos assediada que as citadas, “Vientos de Água, criação do argentino Juan José Campanella que chega com menos publicidade e menor público, mas seu valor artístico é dos mais belos já produzidos pelo cinema recente.


O diretor possui prestígio e seu currículo é rico. O grande público pode reconhecê-lo através de seu “O Filho da Noiva”, já os cinéfilos e admiradores do novo cinema argentino lembram-se dele também em “O Mesmo Amor, A Mesma Chuva” e “Clube da Lua”. Sua carreia cinematográfica elevou seu potencial em reconhecimento, conseqüente a isso obteve oportunidades de trabalhar com outras formas de linguagens nas sitcoms. E pôde trabalhar justamente no país que mais as produzem. Foi nos EUA que Campanella teve seu maior contato com a forma das próprias séries, apesar de dirigir poucos episódios em cada uma delas, como em “Law & Order”, “Ed”, “30 Rock”, “House M.D.” entre outras.


Mas foi, definitivamente, com “Vientos de Agua que Campanella equiparou de sua potência artística criativa. Divididos em 13 episódios a série foi comprada, e veiculada, pela Telecinco espanhola. Emissora essa que se interessou pelo tema que esta propõe.


É sabido, se não, saiba agora, que o cinema argentino há um bom tempo vive de louros, aqui não entra a discussão em vantagem econômica, mas de relevância artística, produzindo filmes uns melhores que os outros, e firmando-se como um pólo de bons diretores autorais em uma classe muito bem representada. Passando por Lucrecia Martel, Carlos Sorín, Daniel Burman, Marcelo Piñeyro, Fabián Bielinsky, Pablo Trapero a Alejandro Agresti, todos diretores possuem pelo menos uma obra notória, ou na maioria dos casos, obras segmentadas por uma carreira ainda bastante promissora. Pretendo ainda mais para frente abrir um post especial à discussão para com o novo cinema argentino, discutindo todos os diretores citados, inclusive. Porém aqui será breve tal lampejo.


Para entender o cinema argentino

Há alguns anos atrás, a Argentina passou por uma das crises sociais mais graves de sua história recente. Conhecido como corralito, o episódio massacrou os bolsos da população em toda a parte do país. O país acordou certo dia em colapso, diante de várias recessões econômicas crescentes, e em 1999 atingiu seu ápice quando diversos países primeiro e terceiro-mundistas passaram pelo mesmo agravamento político, como os Tigres Asiáticos, a Rússia e o próprio Brasil que desencadeou papel relevante na crise argentina. Ao desvalorizar sua moeda (real), o Brasil obrigou o país vizinho fazer o mesmo, mas o que não ocorreu. Investidores, portanto, começaram a desdenhar o país e desvalorizar seus investimentos e com sua super valorização do peso em relação à desvalorização ao dólar, financistas e o povo com temor do pior, tentaram sacar dinheiro dos bancos para convertê-lo em dólar, porém cada cidadão estava proibido de sacar mais de 250 pesos por semana. Com isso manifestações, panelaços e quebra-quebra nas ruas derrubaram quatro presidentes e obtiveram saldos sociais graves por trás de índices de desemprego jamais vistos.


A Argentina estava quebrada. Em conseqüência à crise, muitos artistas e diretores começaram a trabalhar seus filmes nas questões sociais e por assim ser, tratando dela. Muitos de formas sublimes e subliminares, um estilo que foi se seguindo até a atingir este tal cinema novo da terra de Piazzolla. Tornou-se assim um grande foco do cinema mundial, artisticamente falando, com obras que não só dialogam com o próprio país, mas que recruta toda uma situação vivida pela América, a nossa, Latina. “Vientos de Agua são resquícios dessa crise e de uma nova ordem artística.


Com a crise muitos argentinos migraram e buscaram fora do país o que sempre tiveram em tempos menos amargos. E isso é o que há também em “Vientos de Agua. Ernesto Olaya (Eduardo Blanco) é arquiteto de meia idade, quando também afetado pela crise tenta sacar seu dinheiro, e acaba por descobrir, como tantos outros milhares, que a ação não será possível. Em última, e desesperada, análise resolve partir para Espanha, terra natal de seu pai, Andrés Olaya (Héctor Alterio) que durante a Segunda Guerra mundial partiu pelo caminho oposto do filho e se viu obrigado em migrar da Espanha para a Argentina. Está aí o enredo da série, que conta paralelamente as duas histórias em épocas diferentes, mas que se abraçam não só pelo grau do parentesco de seus protagonistas, mas por repetir uma –quase- mesma história em razão de colapsos sociais.


A série é perfeita em uma análise mais abrangente e providencial em tempos de xenofobia provinda de europeus que enxergam os imigrantes como grandes responsáveis por crises econômicas de seus países, ou por crises sociais em uma América segmentada. Em Vientos, há colombianos, dominicanos, argentinos, espanhóis, italianos, judeus, africanos. Todos em situações que são parecidas. Lutam pela sobrevivência em um mundo dito globalizado, mas que não produz coligação entre países e a única maneira de se viver neste velho continente é por maneira ilegal, ou então atrás de familiares que não vivem mais lá, mas que possuem o aval através de um passaporte burocrático, que apenas evidencia como as guerras os trataram há mais de 50 anos atrás.


Nesse sentido, Vientos dialoga com Lost, por exemplo. Estão todos perdidos em uma “ilha” chamada globo e o jogo de trapaças e intrigas faz com que a sobrevivência em terra estrangeira seja primordial possuir um jogo de cintura e estratégias aliando-se a grupos certos. Há de possuir também força para adaptar-se a “novos” tempos num mundo “conectado”.


A linguagem da série é mais parecida com Sétima Arte que televisiva. Talvez isso explique o índice decrescente de audiência na Espanha não acostumada, não só ela, com séries de tamanho porte. É muito mais robusta, é preciso tempo para contemplá-la para um aproveitamento mais razoável. Não é só sentar em frente à televisão com um copo de sorvete nas mãos, lembrando que esta não possui intervalos comerciais (aspecto que evidencia seu caráter mais artístico que comercial). Cada episódio dura em torno de uma hora e quinze minutos. São, portanto, treze longas muito bem realizados. Contando com três diretores e cinco roteiristas a série encontra um equilíbrio narrativo invejável em seus, aproximadamente, 975 minutos. Mesmo porque essa fora toda escrita e confeccionada por Juan José Campanella.


Possui um time de atores talentosos, a começar pelo veterano Héctor Alterio e seu filho Ernesto Alterio (que o vive mais jovem). Ainda conta com Eduardo Blanco (figura carimbada nos filmes de Campanella), a jovem colombiana Angie Cepeda, Pablo Rago, a italiana Giulia Michelini, Valeria Bertuccelli e a francesa Caterina Murino, rosto familiar agora por ter sido escalada como uma das bond girls do novo filme da série 007, com Daniel Craig.


E ainda temos de falar de sua música, que é tão sublime como a própria série. Composta por Emilio Kauderer, a música como todo belo tango é penetrante e vibrante, sendo impossível não ficar emocionado com a belíssima criação.


Saldos da chuva

A conclusão mais óbvia é a de que nossos vizinhos portenhos possuem uma maturidade enorme em enxergar e trabalhar seus próprios problemas. São precisos e não apelam para a dramaticidade ao extremo, pelo contrário, como todo bom vinho, são mais secos. Algo que nós, brasileiros, precisamos urgentemente tomar como lições provindas da terra do tango. E toda essa classe é transpassada em tela com episódios que são verdadeiras aulas de direção e condução.


Veiculada no Brasil pela HBO, que exibiu seu último capítulo ontem, a minissérie conquistou públicos e críticos em diversas partes da América, até porque sua premissa não faz concessão alheia a seus vizinhos. Falando em HBO, emissora essa que notadamente vem produzindo diversas minisséries com apostas no cinema latino americano. Vide as brasileiras de grande porte, “Filhos do Carnaval” e “Mandrake” ou a própria argentina, “Epitáfios”. É sempre muito interessante ver tantas obras relevantes em um continente tão rico como o nosso.


Mas fique ligado, pois “Vientos de Agua é melhor que todas essas, no mínimo excelentes, que tratam de assuntos tão corriqueiros a nós. Fazia tempo que uma série não me conquistava por completo. Tive a sensação em “Filhos de Carnaval”, mas a intensidade agora é muito maior. Não perca de jeito nenhum o exercício artístico que é “Vientos de Agua. Obras primas assim são difíceis de encontrar tão completas e livres de concessões burocráticas que as limitam. São ventos favoráveis à classe artística latino-americana, ventos esses que indicam chuva de criatividade e inteligência.


E Vientos prova que a Arte pode ser maior, ainda hoje.

Fique esperto! | GOTAN PROJECT |

Essa banda é simplesmente viciante! Misturando batidas dubs com violino, acordeon, vozes sintetizadas, guitarra, piano, teclado, bateria eletrônica, o tal Gotan Project produz uma alquimia musical que é impossível ficar alheio. A mistura desencadeia um estilo vigoroso de batidas pungentes em um estilo deliciosamente cadenciado. E logicamente, tudo à base do melhor tango argentino, sensual e penetrante. Música de primeiríssima qualidade.


Em um mundo dito globalizado, o termo pode ser, pelo menos, um pouco mais sincero em sua análise dentro dessa formação. Philippe Cohen-Solal, francês, Christoph H. Mueller, suíço e Eduardo Makaroff, argentino, compõem o Gotan Project, banda que mistura ritmos em um caldeirão sensual e dançante.


Quando montaram o grupo, procuravam um som característico, misturando dubs com acordeon e violino, uma espécie de “cibertango”. Criaram assim o Gotan (tanGo ao contrário) Project, banda que vem conquistando cada vez mais público e elogios. O álbum de estréia, “La Revancha del Tango”, firmou-se em 2001 como um dos mais notórios daquele ano. Depois veio o cd de compilação selecionado por Cohen-Solal, “Inspiración – Espiración” de 2004, contando com tangos raros, encontros musicais, Astor Piazzolla, remixes, e ainda com duas faixas inéditas do próprio Gotan Project.


E por fim, em 2006 o grupo lança “Lunático”, segundo de inéditas. Disco esse, que não sai de meus fones, em minha lista de preferidos para qualquer momento. Para constatar a preciosidade musical do grupo, escute a poderosa “Diferente”, as contagiantes “Criminal”, “Mi Confesion” ou “Arrabal”, primeiramente, e entenderá o que estou dizendo. Salta aos falantes: isso é Gotan Project! Conciso, rico, sensual e experimental são alguns adjetivos que cabem ao grupo, porém tangê-lo em algum arquétipo estético-musical é pretensão demais tendo em vista a própria arte criada por uma banda tão eclética. Essa, no sentido mais inteligente e rico da palavra.