
Há dois anos no Brasil, ocorreu um referendo sobre a proibição do comércio de armas de fogo, os votos eram baseados no `sim´ e no `não´. Simples: sim, para o desarmamento, e não, para o não desarmamento. Venceu o não. Na época, e até o hoje o pensamento por trás da vitória fora de que não podemos nos desarmar, já que isso acarretaria numa completa entrega contra todos os bandidos e marginais (muito bem armados e munidos) que poderiam com isso fazer o que quisessem conosco.
Agora, mais precisamente antes de ontem, ocorreu um novo massacre nos EUA que mais uma vez fez vítimas em números grandiosos, no caso, o maior registrado no país. A tal chacina não foi cometida por bandidos, delinqüentes, terroristas ou inimigos da sociedade. Foi executado por um civil, o sul-coreano Cho Seung-hui.
Os donos do poder na Casa Branca nada falaram em respeito ao horror ocorrido. Na verdade falaram. George W. Bush disse estar “horrorizado” e nada mais. Lógico, está mais preocupado com a política externa que interna do país. E a frase dita no começo do texto, poderia, mas não pertence a políticos, personalidades ou civis brasileiros, fora em vez disso, proclamada pelo senador republicano John McCain (candidato à reeleição norte-americana), com posição intransigente em relação à Segunda Emenda, que dá o direito de qualquer americano portar armas de fogo.
Ontem, na capital carioca mais uma vez a guerra entre traficantes e policiais deixou um saldo de 25 mortos (até agora). Aqui, tais notícias são rotina, não chocam mais. Esse é um dos verdadeiros problemas em nosso país. Fechamos os olhos para o ocorre em nosso país, e ficamos horrorizados com o nosso mundo. George W. Bush fez uma visita rápida ao Brasil, e no dia que ficou hospedado em terras tupiniquins, houve manifestações, quebra-quebra, depredações e arrastões. Isso porque somos muito socialistas e corretos. Mas essas mesmas manifestações ficam caladas e não assumem caráter algum quando em nosso próprio país, são eleitos Collor, ACM, Maluf, Enéas e outras personas mais perigosas a nós que o presidente americano. Mas para fazer bonito, nosso discurso político é antiimperialista, sendo que no Brasil mais gente morre de fome que em Guerras como a do Iraque, o preconceito contra homossexuais, negros, orientais, islâmicos, idosos é o mesmo que no primeiro mundo. E mais ainda, muitas das pessoas que são ariscas a persona de Bush (e sua política) votaram no Não no referendo, fazendo valer a mesma lei da bala outorgada pelo governo norte-americano em sua Segunda Emenda. Mas isso fazemos questão de omitir. Para muitos brasileiros existe o poder e o eixo do mal, que são os ianques. Em outras palavras, atacamos outras nacionalidades e esquecemos-nos de cuidar da nossa. Já vi isso em algum lugar (ou país).
Ontem protagonizei uma cena que é muito comum de se ver. Um bêbado estava no meio das ruas xingando a todos que passavam pela mesma calçada que se encontrava o pobre coitado cambaleando, e quando foi atravessar a rua chegou a parar o trânsito e reclamar dos motoristas. A violência neste caso não é física, mas psicológica. Incomoda ver tal ação protagonizada por um sujeito que não possui mais esperança em nada e está entregue a um destino que todos sabemos. O que faz passarmos por ele, fingindo ser ele um ser invisível é que para nós isso não é “problema nosso”. Porém se este mesmo sujeito portasse uma arma a situação seria outra. O problema seria nosso. Criamos um escudo para o que não queremos enfrentar.
Quando, finalmente, a sociedade estiver desarmada, o bandido não irá fazer a festa aqui como pensam sociólogos da classe média, mesmo porque ele nunca obteve o convite para entrar em tais festas. Aqui, em São Paulo, há um ano atrás, o PCC tomou conta da cidade durante quase dois dias completos, declarou-se na ocasião estado de emergência até, e pelo que me lembro ninguém saiu nas ruas os enfrentado com suas próprias armas e seus direitos em reivindicar a violência através dela, esta devidamente lícita pelo voto que se validou através do referendo. A questão é outra, nós já estamos munidos de muito mais armas que eles. Nossa principal arma contra os bandidos não é, e nunca serão as armas. São nossos carros, nossos salários, nossas rendas tão díspares de um salário, que é mínimo. Nossas armas são nossos vidros blindados, nossos shoppings centers, nossos cartões de crédito, nosso preconceito, nossas vergonhas de enfrentarmos a situação, nossas escolas, nossas roupas, nossas comidas, nossos sonhos de consumo, nossos estilos de vida, e nossos votos. Nós somos a causa, eles a conseqüência. Essas armas que possuímos são numericamente muito superiores (e eficientes) que qualquer arma física. O perigo maior é aquele que não possui face, que ataca calado e constantemente, como um câncer. O estrago é monumental e crescente. Somos nós que construímos e mantemos esse apartheid econômico perverso.
Já chegou o momento de olharmos para nossa situação para encará-la de frente, e não usar o modelo norte-americano como o mais perigoso e perverso de uma civilização recente. Enquanto ficamos horrorizados, homologamos o comércio de armas e munições, e estudamos o comportamento subversivo de Suzanes Richthofens e de Cho Seung-huis, sendo que o verdadeiro foco do problema não está contido –apenas- no comportamento de tais jovens. Ficamos horrorizados com as mais de trinta mortes na faculdade americana, e banalizamos qualquer situação que se ocorre em qualquer “beco” de nosso país. E por fim, somos tão hipócritas quanto George W. Bush que se diz horrorizado com o massacre nas faculdades, e que logo depois mata milhares no Oriente Médio sem culpa e horror algum.
Estamos confundindo as críticas, os EUA é aqui.
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