“O carnaval tem de ser um evento mais generoso com a população. A idéia do Pipocão é democratizar a folia. Chega de abadás e cordas. Precisamos ter outras idéias para o carnaval de Salvador.”. A frase foi dita por Carlinhos Brown quando se apresentou no carnaval na capital baiana deste ano. O filme “Ó, Paí, Ó” parece seguir essa crítica. É provável que não conquiste o público Globo wanna be, até mesmo por se tratar de um exemplar mais corajoso e sincero. Sincero em mostrar realmente do que é feito o carnaval em Salvador, com sexo, suor, samba e negritude. Por isso, corajoso. O filme é carnal, é muito mais sentido e feito com pele que cosméticos que maquiam as transmissões nas passarelas brasileiras para gringo ver.
O filme pode causar certa estranheza e o grande público talvez fique um pouco receoso com tal linguagem, mas a adaptação não demora muito e quando acontece se verá conquistado por uma história cativante, sincera e dançante (a trilha sonora é outra de suas qualidades). O texto vem da peça teatral de Márcio Meirelles e a adaptação é bem feita, apesar de alguns atores acharem que ainda estão no palco, gesticulando e gritando um pouco a mais que o cinema pede. Mas isso não estraga a boa experiência que “Ó, Paí, Ó” proporciona. O elenco é forte. Encabeçado pelos (sempre) excepcionais, Lázaro Ramos e Wagner Moura, conta também com Dira Paes e com o grande Stênio Garcia em papel menor, mas essencial, ainda há espaço para outros menos conhecidos, mas talentosos atores.
A história acompanha diversas personalidades pelo pelourinho, numa espécie de “Magnólia” da Bahia. O filme de Monique Gardenberg é potente e dialoga com uma situação enfrentada pelo Brasil que é o carnaval e suas diversas faces. Não é só de samba, bunda e festa que se faz o carnaval. Em baixo dos trios elétricos há euforia, hormônios e festa, mas também há tristeza, miséria e pessoas carnais, de verdade.
Em uma das cenas que para mim já entra como uma das mais fortes do cinema nacional de 2007 é quando o personagem de Wagner Moura confronta Lázaro Ramos chamando-o de negro em tom depreciativo. Lázaro responde. Mas o faz com a alma, arrepiando em uma atuação visceral em que cala a boca do racismo. Um dos maiores orgulhos do cinema nacional traduziu-se em cena atuada por um dos maiores atores dessa geração. Em tempos, o racismo nunca fora tão confrontado em tela, no Brasil atual.
Assista e confira que ainda há espaço no Brasil para o cinema que pensa.
No serviço de auto-falante
No morro do pau da bandeira
Quem avisa é o zé do caroço
Amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira
Ai Como eu queria que fosse mangueira
Que existisse outro zé do caroço
Pra dizer de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz é madeira
Mas é morro do pau da bandeira
De uma vila isabel verdadeira
É o zé do caroço trabalha
É O zé do caroço batalha
E que malha o preço da feira
E na hora que a televisão brasileira
Destrói a gente com a sua novela
É que o zé bota a boca no mundo
E faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela
Está nascendo um novo líder
No morro do pau da bandeira
(Leci Brandão)
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