O que mais impressiona no novo trabalho do mexicano Alfonso Cuarón, é sua brilhante direção. Muitos conseguem essa proeza por diversas maneiras. Uns são discretos (Clint Eastwood), outros eloqüentes (David Fincher), realistas (irmãos Dardene), dinâmicos (Michael Mann) e assim por diante. Todos eles são grandes diretores, mas o são em suas particularidades. Já Alfonso Cuarón, em seus trabalhos anteriores, nunca demonstrou um estilo tão próprio, mas é em “Filhos da Esperança” que se revela um diretor fantástico em suas concepções. Com planos, no mínimo, inteligentes, Cuarón pontua sua obra (prima) com diversas seqüências que desafiam a lei cinematográfica de planos simples e eficazes (leia-se: clichês) em cenas de ação, e transcorre um caminho inverso e perigoso, de intensa orquestração e plasticidade, que com certeza, custou ensaio e planejamento excessivos. Não quer dizer, porém, que Cuarón chama toda a atenção para si. Ou melhor, o roteiro não o permite tal exercício egocêntrico. Este é bom o suficiente para dividir a atenção de um público atento a técnicas cinematográficas.
Filmes sobre o fim dos tempos existem muitos, mas tão críveis e eficazes sem serem engolidos pela própria megalomania apoteótica, são poucos. “Guerra dos Mundos”, a visão apocalíptica de Spielberg que muitos torceram o nariz, lembra até “Filhos da Esperança” (que, aqui, pela história é muito mais próxima a “Os 12 Macacos”). Gosto bastante daquele filme (mas reconheço que “Filhos da Esperança” é maior cinema) e aprecio diversas cenas muito bem dirigidas por Spielberg, que também é grande diretor. Em uma delas, em especial, remeteu-me a “Filhos da Esperança”. É quando Tom Cruise sai em disparada dirigindo um carro, junto com seus dois filhos em uma cidade destroçada. O caminho torna-se menos fluente em razão de destroços, carros capotados e pedaços de concreto na pista em uma cidade em pane, o que torna a cena ainda mais tensa. Mas o importante é a mão de Spielberg nela. Lá o diretor conduz sua câmera com inteligência, há momentos em que a câmera entra e sai do veículo, em movimento, num plano-seqüência muito bem orquestrado. Lembro de ter ficado entusiasmado com a inteligência cinematográfica de Spielberg. Agora ao assistir “Filhos da Esperança” uma cena parecida também ocorre, mas o resultado é diferente. O plano-sequencia concebido por Cuarón é absurdamente eficaz. Dura em torno três longos minutos em que ocorrem diversas ações cruciais a narrativa. Ou seja, não se trata “apenas” de um plano estupendo e um exercício plástico magnífico, possui valor e fluidez narrativa. O resultado é inexplicável, só mesmo conferido em tela. Quando você assistir, se é que já não assistiu, com certeza, saberá qual é. Esse é só um dos exemplos dos grandes planos (seqüências, em sua maioria) existentes no filme, que elevam seu valor cinematográfico.
É uma das coisas mais belas de ver. A história? Vou apenas parafrasear uma mulher que ao ser abordada por sua amiga, que a esperava do lado de fora da sessão, respondeu com um suspiro prévio, “o filme é triste, mas muito lindo”. Triste, com certeza, mas bota lindo nisso!
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