quarta-feira, 4 de abril de 2007

Jogo de Espiões

No Festival de Berlim de 2006, em entrevista coletiva pós lançamento de seu longa, “O Bom Pastor”, De Niro se esquivou das perguntas que faziam analogia de seu filme aos EUA de Bush, atual. Disse que não teve a intenção de discutir política de hoje, isso num filme que conta o nascimento da CIA, a maior agência de inteligência americana. Se é ou não político, o espectador deve concluir por si só, mas o que interessa aqui é comentar a respeito desse brilhante longa com porte de clássico recente.


Parecia que De Niro tinha esquecido o que era verdadeiramente fazer um grande cinema. Depois de anos em inércia criativa repetindo seus cacoetes em papéis menos profundos daqueles que remetem a imagem do grande ator que é, De Niro pareceu estacionar sua carreira com personagens irrelevantes que só traziam o peso de seu nome junto ao elenco (e a sua conta bancária).


Agora o velho Bob volta com seu segundo trabalho atrás das câmeras (“Desafio no Bronx”, de 1993, foi sua estréia) e prova que seu valor artístico continua o mesmo daquele que pontuou toda sua carreira como ator. Antes de tudo, é bom esclarecer, por mais que De Niro fuja das comparações ao Estados Unidos atual, o roteiro fora escrito por Eric Roth. De nome talvez você não o reconheça, mas dos filmes “Munique”, “O Informante” e “Ali” você se lembra. Pois aí está seu roteirista. Citei-o apenas para duvidar do tom apartidário do roteiro, vide seus trabalhos anteriores. Inclusive, “O Bom Pastor” dialoga com “Munique”. Nos dois filmes, discute-se o passado e faz-se uma analogia para com a situação geopolítica atual, ou melhor, fica subentendido em seus finais que a situação atual é só uma conseqüência de fatos e ao adicionarmos algumas décadas em seus tempos, entenderemos onde estamos. Resumindo: seus temas são muito maiores que aparentam.


E já que o citei, este me lembrou bastante “Munique”. O longa de Spielberg é mais dinâmico, mas não os associei pela narrativa, e sim pelo que tratam. O assunto de “O Bom Pastor” é providencial e De Niro dirige tudo sem pressa, confeccionando uma obra que já se torna notória pela grandiosidade que carrega em valores cinematográficos. A edição de Tariq Anwar é de grande auxílio para tal, sendo espetacular ao mesclar as diferentes épocas com inteligência narrativa.


De Niro talhou sua carreira ao ser dirigido por grandes diretores. Entre eles, Scorcese, cuja parceria rendeu, até hoje, nove filmes. Se em seu filme anterior na direção, "Desafio no Bronx", De Niro captou o universo Scorcese de se filmar, aqui parece se inspirar em outro diretor. "O Bom Pastor" tem mais o estilo Sérgio Leone e/ou Coppolla. Com cenas e enquadramentos sensacionais, De Niro parece ter aprendido a lição com seus mestres e filma como um deles. É incabível pensar, portanto, num descaso para com seu filme em quase todas as premiações, mas pode entender tal subestimação por sua longa duração; 167 introspectivos minutos. Mas tempo aqui não é importante, poderia ter muito mais, pelo grande cinema que é. “Era Uma Vez Na América” de Sérgio Leone, com o próprio De Niro como protagonista, possui intermináveis 229 minutos, e mesmo assim isso não o enfraquece de modo algum, pelo contrário.


É provável que o grande público não compreenda muito De Niro como diretor, que faz um filme com ritmo lentíssimo para o padrão MTV, voltando às origens de grandes clássicos épicos do cinema americano, como “O Poderoso Chefão”. E por falar em trilogia, De Niro pensou em seu “O Bom Pastor” como o primeiro de uma trilogia. Ainda acompanharíamos a CIA na época da queda do Muro de Berlim, e em sua terceira parte, no pós-11 de Setembro. Torço demais para que o projeto se concretize. Porte para tal possui.


Aqui, conta-se a história do nascimento da CIA, desde o começo da década de 1940 até a década de 60, com Matt Damon como protagonista. Está muito bem, inclusive. Seu personagem é contido, misterioso e introspectivo, o que o torna ainda mais interessante. Alec Baldwin, Willian Hurt, Angelina Jolie, Billy Crudup, Michael Gambon, John Torturro e o próprio De Niro estão também no elenco. Todos muito bem, diga-se de passagem, mas o destaque fica para a participação especial de Joe Pesci, revivendo uma grande parceria e de volta às telas depois de um hiato de oito anos. É bom ouvir sua voz típica, em tela novamente.


Não perca “O Bom Pastor” que ainda está nos cinemas, mas parece não agüentar muito mais, já que isso depende do retorno da bilheteria, o que deve não ocorrer por se tratar de um filme muito mais complexo e introspectivo que “300” e “Motoqueiros Fantasmas” da vida. Mas de todo modo, a dica é conferi-lo ainda nos cinemas com todo seu poder de imersão, para poder apreciar a grande obra em tela cheia, e, assim, não perder nenhum detalhe de seus brilhantes planos.


De Niro demorou dez anos para a concepção de “O Bom Pastor”. Tomara que não demore mais uma década para que surja o próximo. Mas se ocorrer, a espera valerá à pena, tendo em vista a obra que nos entregou.


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