quarta-feira, 28 de março de 2007

Perfume de Mulher

Lourenço e E. Edward Grey poderiam ser a mesma pessoa ou se não, de iguais criações. Escrotos, sádicos, mesquinhos são adjetivos que cabem à persona destes que se subjugam superiores utilizando o poder que possuem, seja monetário ou hierárquico, em favor de suas taras psico-sexuais. Poderiam ser também um mesmo protagonista, mas apesar das semelhantes características, não são. Lourenço é personagem da obra literária homônima “O Cheiro do Ralo”, o lançamento nacional cultuado. E. Edward Grey é protagonista do psicanalítico “Secretária”, com James Spader e Maggie Gyllenhaal.


Em “O Cheiro do Ralo”, quem vive Lourenço é Selton Mello, e o tal LourençoMutarelli-, autor do livro, empresta seu nome e persona a fita. Desempenha também papel importante em tela, como o segurança de Selton. Adaptado do romance de Mutarelli, o roteiro é assinado pelo próprio diretor, Heitor Dhalia, e pelo roteirista amparense Marçal Aquino, costumeiro colaborador dos longas de Beto Brant, e também de “Nina”. Mutarelli também já havia trabalhado com Dhalia em seu longa de estréia, o mesmo “Nina”, que se utiliza de suas ilustrações e concepções artísticas em favor de um filme mais hibrido e sombrio, universo comum a Mutarelli. E aqui reside a principal diferença entre os longas comparados, anteriormente. No filme nacional, tudo é mais sombrio e o tal cheiro do título, é uma das várias premissas bizarras repletas de obscuridades que permeiam a tela em seus 112 minutos de projeção.


Vale explicar esse prisma barra pesada que rodeia o autor. Quando menor presenciou algo que o influencia até hoje. Quando Mutarelli tinha 17 anos, seu pai, delegado, o levou para uma sessão de tortura, tentando ensinar, não se sabe o que, ao filho. Até hoje, os resquícios de tal sessão não foram apenas ao torturado físico. Mutarelli toma remédios para tratar da esquizofrenia, controlada hoje. Interessou-se assim pela alma humana e suas perversões. Diz gostar de Freud, por isso o cartunista e escritor utiliza dos signos em suas obras para compor suas histórias e esquisitices dos personagens. Em “O Cheiro...”, portanto, o próprio ralo, o olho, a figura paternal e a bunda não são jogados ao acaso. Tudo faz um sentido maior na mente de Mutarelli.


O texto, realmente é ótimo. Ainda não li o livro, mas é sabido que um dos grandes colaboradores financeiros e artísticos do filme é seu protagonista. Selton Mello quando leu o romance e soube do interesse de Dhalia em transpô-lo para o cinema, não pensou duas vezes. Ligou logo quando embarcou no Nordeste (estava em pleno vôo quando o leu, para promover a peça que estrelava: “O Zelador”) para o diretor, quase que implorando pelo papel na fita. A partir disso o resto todos já sabem, mas o que talvez não saibam é que o próprio Selton tão maravilhado com o texto, era um dos mais críticos e rigorosos com a adaptação. Inclusive decorou trechos inteiros da obra e ficava repetindo-a pelo set. Portanto, voltando à questão do roteiro ter sido muito cauteloso para com a adaptação, isso não há dúvidas.


Falando em Selton, esse é um aspecto à parte do longa. Está impagável como Lourenço. Que seu timing para a comédia é excelente, isso é sabido, porém o sarcasmo, o sadismo, insegurança e egocentrismo exacerbados são peças chaves na brilhante composição para o personagem. Está excelente, e hilário. Hilário? Uma pulga na orelha de Selton. O ator tão compenetrado no papel e na obra mergulhou de cabeça no universo de Mutarelli. Todo o processo e a narrativa para ele tão densos não tinham nada a ver com comédia, e começara assim a ficar espantado quando o público ria a exaustão em Festivais pelo Brasil e afora ao receberem o filme por um prisma diferente, que este fora entender apenas mais tarde, com o feedback da própria audiência. Isso quer dizer que errou-se a mão na composição do filme? Não necessariamente, mas fica a deixa para uma possível pretensão por parte dos realizadores, mas não enxergo por esse modo.


A história claro: Lourenço possui uma loja de objetos antigos, e os obtém através de negócios com seus clientes desesperados por dinheiro. Uma das armas de Lourenço é exatamente essa, a de torturar suas “vítimas” através de uma suposta superioridade que acredita possuir em razão de sua situação econômica. Há também o tal ralo do banheirinho que fede por estar entupido. Para ele há sempre a necessidade de explicar a seus clientes de onde provém o tal odor, sem nunca consertá-lo; uma boa metáfora a sua personalidade. Seus monólogos são ótimos em razão do humor seco do protagonista, e sua teoria do cheiro do ralo, é excelente. Chega até um momento a afirmar que “poderia envelhecer ao lado dessa bunda”, pertencente à garçonete do bar, onde come desgostosamente uma ruim comida, apenas para ter o prazer de contemplar seu objeto de desejo, outra das bizarrices metafóricas interessantes de Mutarelli. E “por fim”, o tal olho da foto e do cartaz. Em uma de suas negociações, lhe é oferecido tal objeto que este hesita, mas acaba adquirindo por um valor exorbitante e em razão disso, cômico. Lourenço cria toda uma história para o objeto, que protagoniza diversos momentos sensacionais no longa. Selton é hábil em projetar suas falas de modo extremamente cômico, arrancando risos apenas com a entonação de sua voz.


A direção de arte de Guta Carvalho também é inteligente ao criar em apenas um grande galpão, bons cenários inóspitos, contribuindo mais ainda ao universo “bostial” do filme. Até o figurino é pensado dessa maneira. Lourenço veste tom sobre tons da cor marrom, ou como o próprio Selton define, uma “cor de merda, mesmo”.


Voltando ao longa de Steven Shainberg (o mesmo do recente “A Pele” com Nicole Kidman), a tal “Secretária” que é o objetivo de dominação e submissão sexual de E. Edward Grey. Há a mesma maluquice de “O Cheiro do Ralo”, mas não chega a ser tão obscuro, é mais contemplativo. Há o interesse nas duas bundas femininas, e pode-se traçar uma semelhança carnal nos desejos dos dois protagonistas, mas estes o utilizam de diferentes maneiras. A personagem de Maggie chega a dividir momentos esquizofrênicos com Edward, ao contrário da garçonete no longa de Dhalia. Há também entrega pelas duas partes, mas em “O Cheiro do Ralo” esta é mais negociável e por assim ser, mais triste.


São dois projetos que estudam a alma humana em suas bizarrices e desvios. Passeiam por caminhos diferentes, mas chegam a um ponto em comum, o da consagração e a constatação da própria conquista. E a partir disso entendem que cada ser é complexo dentro de sua própria peculiaridade. Parecem ser muito mais complexos que são, mas assim como uma bunda, os personagens tornam-se quase que banais sem as máscaras que travestem.


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