Há algum tempo comecei um esboço de um post, mas o arquivei. Não lembro a razão. Muito talvez por preguiça, simplesmente. Eis que o resgato, e o reescrevo:Sempre nessa época começam a surgir diversas listas de melhores e piores do ano. Estas listas geralmente são numeradas por 10, 20 ou 30 filmes, shows ou quaisquer que sejam os fatos marcantes do ano que se encerra. Tradicionalmente também concebia tais listas para apreço individual, porém este ano, justamente o qual criei o blog, não o fiz.
Mas de certa forma, esse post serve como referência ao ano que se encerrou há alguns dias. E falando em fatos marcantes, cito, e crio esse texto, para elogiar um dos melhores filmes de 2007, ou melhor, um dos melhores filmes de gênero de um bom tempo para cá. Trata-se de "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford".
Estava receoso, a príncipio, para ver o novo western criado pelo australiano Andrew Dominik, pois na pós-produção do filme houveram alguns desentendimentos em relação ao rumo da obra. De um lado, o próprio diretor contra o produtor, e protagonista, Brad Pitt, e do outro o estúdio Warner que achou seu tempo de duração muito longo; 163 minutos, originalmente mais de 200. Foi nesse meio tempo que a fita teve estréia pelos fsetivais afora e foi colecionando, não tantos prêmios, mas elogios pela crítica especializada. Assisti a seu trailer e fiquei chapado com a idéia do roteiro, resgatando um filme de gênero.
Consegui assistir ao filme somente em uma sessão bem de tarde de uma terça-feira (22:20) no Shopping Iguatami. Ah, como odeio aquele shopping! Sabe tudo o que ativistas, sociólogos ou pensadores dizem a respeito de shoppings? É sobre o Iguatemi que eles falam! Lojas de marca, gente "selecionada", tudo limpinho e cheiroso, moças de limpeza com uniformes engomados. Enfim, um nojo capitalista para velhos e filhos de velhos ricos. Fora o preço do ingresso: dez reais a meia entrada! Mas enfim, não era pra me estender tanto sobre o shopping, é que fui muito a contra-gosto, somente pela razão de ser a sala remanescente a passar "O Assassinato de Jesse James Pelo Covard Robert Ford". Uma pena...
Sei que não é um filme fácil de se ver, mas seu valor artístico é algo inegável. Penso nos circuitos "alternativos". Gemini, Cinesesc, CineArte Lillian Lemmertz, Sala UOL (mudou de nome? IG? Ou é outro provedor?). Será que nesse circuito o filme não encontraria seu público?
"O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford" me pegou pelo estômago e pela alma. Além de ser lindíssimo visualmente, seu ritmo, sua construção narrativa são sublimes, tornando-o quase único em sua abordagem dentro do tema. O diretor, o australiano Andrew Dominik, resgata um gênero que marcou época e que por muito tempo foi a cara, a personificação, do cinema norte-americano, o western, e criou um estudo de personagens magnífico. Jesse James por muito tempo foi conhecido como um Robin Hood do Velho Oeste. Foi-se construindo uma fama a partir disso, um mito. Sua figura tornou-se muito maior que sua própria pessoa. Jesse James virara uma imagem.
Nisso têm alguns aspectos que Dominik acerta em cheio. Há algo mais certeiro que escolher Brad Pitt para viver Jesse James em tela? O maior astro do cinema de Hollywood atual, e um dos mais perseguidos pelas revistas de fofocas, pela mídia vive ele mesmo no Velho Oeste. O mito Brad Pitt poderia ser o tema da fita. Casey Affleck, um ator menos experiente vive Robert Ford [o covarde], que anda em conflito consigo mesmo, não sabendo o que exatamente busca na sua admiração e aproximação à Brad Pitt, digo, Jesse James. Muitas pessoas podem se colocar nesse mesmo lugar hoje em dia, querendo a todo custo viver ao lado dessa fama. Ser a fama, deitar com a fama, entender a fama. Tê-la, mesmo que por quinze minutos. É o que pergunta Jesse James em um momento: "Você quer ser como eu, ou ser eu?"
Daí o assassinato. É tão grande seu nome que até assusta quem o encara. Se fosse um repórter, perguntaria a Brad Pitt como ele encara a sua própria fama. Como é ser um mito; como ele encara ser um adjetivo? Como se prepara, como convive com isto o tempo todo? A resposta será que está em Jesse James?
Só sei que o filme me deu um nocaute. Ao sair da sessão tinha certeza que havia amado o que acabara de assistir, mas depois de alguns dias isso virou uma certeza muito maior que imaginava. E só de assistir o maravilhoso trailer do filme, por exemplo, o universo todo me remete a uma das obras cinematográficas mais lindas e complexas que visitei ultimamente. Sua fotografia, a trilha sonora, as interpretações de Brad Pitt e Casey Afleck já valem a incursão.
Tem tantas coisas a se falar sobre "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford" (o título já é uma delas, resgatando o espírito de revistas em quadrinhos de bang, bang) que poderiam dar em vários posts. Com certeza mais virão. É um filme que mexeu muito comigo. Estou louco para alugá-lo (vai sair em Março nas locadoras) e resvisitá-lo. Gostaria de ter mais uma chance no cinema com seu poder de imersão.
O que seria digno para um dos melhores lançamentos americanos ultimamente.



