quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

o anti-herói americano

Há algum tempo comecei um esboço de um post, mas o arquivei. Não lembro a razão. Muito talvez por preguiça, simplesmente. Eis que o resgato, e o reescrevo:

Sempre nessa época começam a surgir diversas listas de melhores e piores do ano. Estas listas geralmente são numeradas por 10, 20 ou 30 filmes, shows ou quaisquer que sejam os fatos marcantes do ano que se encerra. Tradicionalmente também concebia tais listas para apreço individual, porém este ano, justamente o qual criei o blog, não o fiz.

Mas de certa forma, esse post serve como referência ao ano que se encerrou há alguns dias. E falando em fatos marcantes, cito, e crio esse texto, para elogiar um dos melhores filmes de 2007, ou melhor, um dos melhores filmes de gênero de um bom tempo para cá. Trata-se de "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford".

Estava receoso, a príncipio, para ver o novo western criado pelo australiano Andrew Dominik, pois na pós-produção do filme houveram alguns desentendimentos em relação ao rumo da obra. De um lado, o próprio diretor contra o produtor, e protagonista, Brad Pitt, e do outro o estúdio Warner que achou seu tempo de duração muito longo; 163 minutos, originalmente mais de 200. Foi nesse meio tempo que a fita teve estréia pelos fsetivais afora e foi colecionando, não tantos prêmios, mas elogios pela crítica especializada. Assisti a seu trailer e fiquei chapado com a idéia do roteiro, resgatando um filme de gênero.

Consegui assistir ao filme somente em uma sessão bem de tarde de uma terça-feira (22:20) no Shopping Iguatami. Ah, como odeio aquele shopping! Sabe tudo o que ativistas, sociólogos ou pensadores dizem a respeito de shoppings? É sobre o Iguatemi que eles falam! Lojas de marca, gente "selecionada", tudo limpinho e cheiroso, moças de limpeza com uniformes engomados. Enfim, um nojo capitalista para velhos e filhos de velhos ricos. Fora o preço do ingresso: dez reais a meia entrada! Mas enfim, não era pra me estender tanto sobre o shopping, é que fui muito a contra-gosto, somente pela razão de ser a sala remanescente a passar "O Assassinato de Jesse James Pelo Covard Robert Ford". Uma pena...

Sei que não é um filme fácil de se ver, mas seu valor artístico é algo inegável. Penso nos circuitos "alternativos". Gemini, Cinesesc, CineArte Lillian Lemmertz, Sala UOL (mudou de nome? IG? Ou é outro provedor?). Será que nesse circuito o filme não encontraria seu público?

"O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford" me pegou pelo estômago e pela alma. Além de ser lindíssimo visualmente, seu ritmo, sua construção narrativa são sublimes, tornando-o quase único em sua abordagem dentro do tema. O diretor, o australiano Andrew Dominik, resgata um gênero que marcou época e que por muito tempo foi a cara, a personificação, do cinema norte-americano, o western, e criou um estudo de personagens magnífico. Jesse James por muito tempo foi conhecido como um Robin Hood do Velho Oeste. Foi-se construindo uma fama a partir disso, um mito. Sua figura tornou-se muito maior que sua própria pessoa. Jesse James virara uma imagem.

Nisso têm alguns aspectos que Dominik acerta em cheio. Há algo mais certeiro que escolher Brad Pitt para viver Jesse James em tela? O maior astro do cinema de Hollywood atual, e um dos mais perseguidos pelas revistas de fofocas, pela mídia vive ele mesmo no Velho Oeste. O mito Brad Pitt poderia ser o tema da fita. Casey Affleck, um ator menos experiente vive Robert Ford [o covarde], que anda em conflito consigo mesmo, não sabendo o que exatamente busca na sua admiração e aproximação à Brad Pitt, digo, Jesse James. Muitas pessoas podem se colocar nesse mesmo lugar hoje em dia, querendo a todo custo viver ao lado dessa fama. Ser a fama, deitar com a fama, entender a fama. Tê-la, mesmo que por quinze minutos. É o que pergunta Jesse James em um momento: "Você quer ser como eu, ou ser eu?"

Daí o assassinato. É tão grande seu nome que até assusta quem o encara. Se fosse um repórter, perguntaria a Brad Pitt como ele encara a sua própria fama. Como é ser um mito; como ele encara ser um adjetivo? Como se prepara, como convive com isto o tempo todo? A resposta será que está em Jesse James?


Só sei que o filme me deu um nocaute. Ao sair da sessão tinha certeza que havia amado o que acabara de assistir, mas depois de alguns dias isso virou uma certeza muito maior que imaginava. E só de assistir o maravilhoso trailer do filme, por exemplo, o universo todo me remete a uma das obras cinematográficas mais lindas e complexas que visitei ultimamente. Sua fotografia, a trilha sonora, as interpretações de Brad Pitt e Casey Afleck já valem a incursão.

Tem tantas coisas a se falar sobre "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford" (o título já é uma delas, resgatando o espírito de revistas em quadrinhos de bang, bang) que poderiam dar em vários posts. Com certeza mais virão. É um filme que mexeu muito comigo. Estou louco para alugá-lo (vai sair em Março nas locadoras) e resvisitá-lo. Gostaria de ter mais uma chance no cinema com seu poder de imersão.

O que seria digno para um dos melhores lançamentos americanos ultimamente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

there will be blood

Bom, voltei do cinema ontem para comentar bem rapidamente sobre "Sangue Negro", mas acabei fazendo outras coisas, portanto venho agora para tal. É um fimaço. Daqueles típicos exemplares de grandes filmes. Grande personagem, grande história. Mas mesmo assim ainda não tenho a certeza de ter visto uma obra grandiosa. Sei que assisti a um excelente filme. Mas será que é só? Acho que não.

Paul Thomas Anderson é um grande diretor. Isso é inegável. Daniel Day-Lewis está fantástico e levará a estatueta, mas mesmo assim, prefiro "Magnólia" e "Boogie Nights", que considero grandes cinemas. A história de "Sangue Negro" revela-se um interessante estudo de personagem e história. Anderson diz que não quis fazer referência ou crítica aos EUA atuais. Não quis, mas é impossível não tangê-lo assim. E por falar em Anderson, o diretor está cada vez mais me irritando com sua postura cool metido. Ao ser perguntado, por exemplo, se estava satisfeito com os Globos de Ouro e os prêmios em Berlim, respondeu apenas: "Não". Ou então, certa vez disse que espera que a Academia não premie somente Daniel, mas que dêem todos os Oscars que merecem. Ah, vá aprender com o Altman... ser humilde. Com Shyamalan algo parecido ocorreu e este foi engolido pelo próprio ego. Mas se bem que Thomas Anderson é muito mais talentoso e menos impostor.

Paul Dano, como o pastor, também dá show. Sua voz desafinada e desajustada dá o tom certo que o pastor-mirim tem de conceber. Como dito, os personagens são fortes, e esse díptico entre a Fé e a Ganância ganhando vida por dois humanos representando seus males mais como um elemento do que como carne e osso é muito bem realizada. Um estudo de uma sociedade que se tornou feroz do capitalismo. E muitas vezes a fé e a ganância, corrompidas, podem se transformar em armas letais.

A trilha sonora de "Sangue Negro" pareceu-me acertada dando o tom que faltava a fita. Desarmoniosa e quase diegética, penetra na mente e ouvido. Muitas vezes parecia que estava assistindo um filme de suspense. Um excelente filme, mas não uma obra-prima.

três homens em conflito


E também assisti outro filme concorrente ao Oscar. "Onde Os Fracos Não Têm Vez". Um puta filme! Achei soberbo em todos os sentidos, e com um rigor de direção fantástico imposto pelos Coen! Ponto pra eles, que fizeram uma obra minimalista, construída aos moldes de grandes clássicos. Edição, construção de diálogos, enquadramentos, atuações. Tudo perfeito. Este sim declaro, uma obra-prima!

E o Javier Bardem então? Já havia escrito isso quando Al Pacino fez aniversário ano passado e volto a repetir. Bardem é o melhor ator em atividade. Na primeira cena do filme, já mostra pra que veio e sua cara insana é apavorante. Bardem criou um novo grande vilão para o cinema. Digno de Pacino e De Niro em seus melhores momentos.

Os irmãos Coen acertam em filmar tudo com a maior precisão e cautela possível. Não têm pressa de contarem a história e vão desenvolvendo os personagens junto com a trama gradativamente, e criam assim muitas vezes um suspense insuportável. Sem falar nas sequências de tirar o chapéu, como a do quarto do hotel. Os diretores possuem domínio completo da linguagem cinematográfica e a utilizam com todo louvor a favor da história, e não vice-versa como fazem tantos outros diretores, como por exemplo Tarantino. Há um momento que estamos acompanhando certo personagem em um quatro de hotel. Este, em uma expectativa angustiante. É quando ele liga para o porteiro do hotel. A partir daí, só vendo. Uma aula de cinema!

Além do mais há também Tommy Lee Jones em mais um papel memorável de sua carreira. Como o policial amargurado e frustrado com a situação que se encontra o mundo atual. Grande Tommy Lee. Daí o título original No Country For Old Men. É tão plural seus significantes. A começar pela obviedade de que cada vez mais a velha guarda, a "calmaria" não tem espaço em um território de lobos famintos e gananciosos. Em outro sentido vem a própria história americana que esquece seus verdadeiros heróis e não dá valor a quem realmente merece. No cinema também?

E para mim há uma especial. Existe uma certa semelhança na paisagem do filme e com o longa de Tarantino Kill: Bill, principalmente o volume dois. A homenagem a grandes autores, o ritmo direto, a temperatura de cores e por aí vai. Mas se no longa de Tarantino, o diretor use as técnicas cinematográficas em favor da estética, Coen fazem ao contrário, usam a técnica em favor da história. O universo e a maneira de ver o mundo de Tarantino poderia ser o verdadeiro No Country For Old Men, amparados pelas escolas de estéticas como nos filmes Sin City, 300... para mim Tarantino homenageia e, ao mesmo tempo, mata seus homenageados em seus exercícios egocêntricos de filmagem. Kill: Bill e seu valor pop industrializado, pensado milimétricamente no marketing é prova disso. O que me vem à mente diversos jovens que utilizam camisetas de filmes como "Laranja Mecânica"; o valor estético parece-me muito maior que o cultural.

Mas enfim, não se elogia um filme criticando um outro. Utilizo para comparação de dois mundos mundo próximos. A sociedade do consumo; que chega até consumir uma tal cultura. O que não me parece acontecer com "Onde Os Fracos Não Têm Vez" dos Coen; um trabalho maravilhosamente orquestrado e dirigido.

na mesma chuva

E os dois filmes comentados se completam. Os dois traçam um paralelo da sociedade americana que se encaixam. Enquanto "Sangue Negro" mostra-se a construção, o nascimento de uma nação, da potência das corporações, "Onde Os Fracos Não Têm Vez" é a consequência disso tudo. A ganância e tudo que deriva dela. Violência, medo, opressão e, por assim ser, o vazio de uma sociedade em crise. Os dois flertam com o Velho Oeste. Em "Sangue Negro", com o final deste período, entregando o posto para o capitalismo, e em "Onde Os Fracos Não Têm Vez" há a metáfora, amparada na maneira de se filmar de Sergio Leone, John Ford e de grandes autores, que os EUA ainda não saíram do Velho Oeste; ou pelo menos sua política. Quem parece entender isso como ninguém é CLint Eastwood, que hoje representa o maior do cinema auto-crítico norte-americano, em que sua persona já marcada pelo período western, discute seu passado e presente.

Está na cara que o Oscar fica com um dos dois filmes. O meu preferido é "Onde Os Fracos Não Têm Vez". Eu completaria as indicações com o magnífico "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford", "Zodíaco" e "No Vale das Sombras". O último apenas para completar um pensamento em favor da discussão da sociedade através de seu cinema atual; já que todos sabem, o Oscar é uma festa para o cinema americano.

tristes notícias

Depois de um bom tempo sem postar, volto aqui. Mudança e cor, estilo e conceito. A cor ainda é passageira e uma homenagem a um fato.

Enfim, triste notícia que nos deparamos há quase um mês atrás, para com a morte precoce de Heath Leadger. Coisa de louco! Pegou-me tanto pelo âmago que fiquei atônito, triste, hesitando em acreditar no que estava todo mundo comentando. Fiquei pensando no ator, na sua família, na energia concentrada pelo fato de ter sido algo tão abrupto e cruel. Parecia que conhecia Heath e estava despedindo do ator dias depois do ocorrido sem conformar-me com pena desse sujeito e de sua família. Sem querer fazer piadas de mal gosto ou coisa parecida, esperava isso de várias pessoas do ramo; Joaquim Phoenix, Lindsay Lohan, mas Heath!? Enfim, muito triste.

E mais ainda quando antes soubera que, na mesma semana, também falecera Brad Renfro. Ator que fez o papel do menino, no "O Cliente" de Joel Schummacher, com Tommy Lee Jones, Ou que fez "O Aprendiz". Duas mortes precoces e sentidas. Ano passado isso ocorreu com dois mestres do cinema, que morreram em datas próximas, ou no mesmo dia, não lembro; Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman.


Descansem em paz...