Bom, voltei do cinema ontem para comentar bem rapidamente sobre "Sangue Negro", mas acabei fazendo outras coisas, portanto venho agora para tal. É um fimaço. Daqueles típicos exemplares de grandes filmes. Grande personagem, grande história. Mas mesmo assim ainda não tenho a certeza de ter visto uma obra grandiosa. Sei que assisti a um excelente filme. Mas será que é só? Acho que não.Paul Thomas Anderson é um grande diretor. Isso é inegável. Daniel Day-Lewis está fantástico e levará a estatueta, mas mesmo assim, prefiro "Magnólia" e "Boogie Nights", que considero grandes cinemas. A história de "Sangue Negro" revela-se um interessante estudo de personagem e história. Anderson diz que não quis fazer referência ou crítica aos EUA atuais. Não quis, mas é impossível não tangê-lo assim. E por falar em Anderson, o diretor está cada vez mais me irritando com sua postura cool metido. Ao ser perguntado, por exemplo, se estava satisfeito com os Globos de Ouro e os prêmios em Berlim, respondeu apenas: "Não". Ou então, certa vez disse que espera que a Academia não premie somente Daniel, mas que dêem todos os Oscars que merecem. Ah, vá aprender com o Altman... ser humilde. Com Shyamalan algo parecido ocorreu e este foi engolido pelo próprio ego. Mas se bem que Thomas Anderson é muito mais talentoso e menos impostor.
Paul Dano, como o pastor, também dá show. Sua voz desafinada e desajustada dá o tom certo que o pastor-mirim tem de conceber. Como dito, os personagens são fortes, e esse díptico entre a Fé e a Ganância ganhando vida por dois humanos representando seus males mais como um elemento do que como carne e osso é muito bem realizada. Um estudo de uma sociedade que se tornou feroz do capitalismo. E muitas vezes a fé e a ganância, corrompidas, podem se transformar em armas letais.
A trilha sonora de "Sangue Negro" pareceu-me acertada dando o tom que faltava a fita. Desarmoniosa e quase diegética, penetra na mente e ouvido. Muitas vezes parecia que estava assistindo um filme de suspense. Um excelente filme, mas não uma obra-prima.
três homens em conflito

E também assisti outro filme concorrente ao Oscar. "Onde Os Fracos Não Têm Vez". Um puta filme! Achei soberbo em todos os sentidos, e com um rigor de direção fantástico imposto pelos Coen! Ponto pra eles, que fizeram uma obra minimalista, construída aos moldes de grandes clássicos. Edição, construção de diálogos, enquadramentos, atuações. Tudo perfeito. Este sim declaro, uma obra-prima!
E o Javier Bardem então? Já havia escrito isso quando Al Pacino fez aniversário ano passado e volto a repetir. Bardem é o melhor ator em atividade. Na primeira cena do filme, já mostra pra que veio e sua cara insana é apavorante. Bardem criou um novo grande vilão para o cinema. Digno de Pacino e De Niro em seus melhores momentos.
Os irmãos Coen acertam em filmar tudo com a maior precisão e cautela possível. Não têm pressa de contarem a história e vão desenvolvendo os personagens junto com a trama gradativamente, e criam assim muitas vezes um suspense insuportável. Sem falar nas sequências de tirar o chapéu, como a do quarto do hotel. Os diretores possuem domínio completo da linguagem cinematográfica e a utilizam com todo louvor a favor da história, e não vice-versa como fazem tantos outros diretores, como por exemplo Tarantino. Há um momento que estamos acompanhando certo personagem em um quatro de hotel. Este, em uma expectativa angustiante. É quando ele liga para o porteiro do hotel. A partir daí, só vendo. Uma aula de cinema!
Além do mais há também Tommy Lee Jones em mais um papel memorável de sua carreira. Como o policial amargurado e frustrado com a situação que se encontra o mundo atual. Grande Tommy Lee. Daí o título original No Country For Old Men. É tão plural seus significantes. A começar pela obviedade de que cada vez mais a velha guarda, a "calmaria" não tem espaço em um território de lobos famintos e gananciosos. Em outro sentido vem a própria história americana que esquece seus verdadeiros heróis e não dá valor a quem realmente merece. No cinema também?
E para mim há uma especial. Existe uma certa semelhança na paisagem do filme e com o longa de Tarantino Kill: Bill, principalmente o volume dois. A homenagem a grandes autores, o ritmo direto, a temperatura de cores e por aí vai. Mas se no longa de Tarantino, o diretor use as técnicas cinematográficas em favor da estética, Coen fazem ao contrário, usam a técnica em favor da história. O universo e a maneira de ver o mundo de Tarantino poderia ser o verdadeiro No Country For Old Men, amparados pelas escolas de estéticas como nos filmes Sin City, 300... para mim Tarantino homenageia e, ao mesmo tempo, mata seus homenageados em seus exercícios egocêntricos de filmagem. Kill: Bill e seu valor pop industrializado, pensado milimétricamente no marketing é prova disso. O que me vem à mente diversos jovens que utilizam camisetas de filmes como "Laranja Mecânica"; o valor estético parece-me muito maior que o cultural.
Mas enfim, não se elogia um filme criticando um outro. Utilizo para comparação de dois mundos mundo próximos. A sociedade do consumo; que chega até consumir uma tal cultura. O que não me parece acontecer com "Onde Os Fracos Não Têm Vez" dos Coen; um trabalho maravilhosamente orquestrado e dirigido.
na mesma chuva
E os dois filmes comentados se completam. Os dois traçam um paralelo da sociedade americana que se encaixam. Enquanto "Sangue Negro" mostra-se a construção, o nascimento de uma nação, da potência das corporações, "Onde Os Fracos Não Têm Vez" é a consequência disso tudo. A ganância e tudo que deriva dela. Violência, medo, opressão e, por assim ser, o vazio de uma sociedade em crise. Os dois flertam com o Velho Oeste. Em "Sangue Negro", com o final deste período, entregando o posto para o capitalismo, e em "Onde Os Fracos Não Têm Vez" há a metáfora, amparada na maneira de se filmar de Sergio Leone, John Ford e de grandes autores, que os EUA ainda não saíram do Velho Oeste; ou pelo menos sua política. Quem parece entender isso como ninguém é CLint Eastwood, que hoje representa o maior do cinema auto-crítico norte-americano, em que sua persona já marcada pelo período western, discute seu passado e presente.
Está na cara que o Oscar fica com um dos dois filmes. O meu preferido é "Onde Os Fracos Não Têm Vez". Eu completaria as indicações com o magnífico "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford", "Zodíaco" e "No Vale das Sombras". O último apenas para completar um pensamento em favor da discussão da sociedade através de seu cinema atual; já que todos sabem, o Oscar é uma festa para o cinema americano.

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