Há dois pontos interessantes a serem analisados depois de assistir a "Meu Nome Não É Johnny". O primeiro consiste em enxergá-lo apenas pelo prisma cinematográfico, o outro discorrerei mais adiante.O filme dirigido por Mauro Lima é extremamente carismático e prende a atenção do espectador desde os primeiros minutos. Diálogos ágeis, situações plausíveis fazem da primeira hora do filme uma diversão a parte. Em meia hora de projeção já conhecemos a família (estrutura), casa e passado do personagem título, João Estrela. Um jovem de classe média alta residente carioca que aproveita a praia, balada e zoação. Um cotidiano muito familiar para os jovens desse circuito social. E é quando este começa a se envolver com drogas. Não apenas como usuário, mas como vendedor, já que a fama que o cargo lhe traz é muito mais prazeroso do que só o apreço às substâncias ilegais.
Selton Mello e Cléo Pires seguram muito bem o filme como personagens centrais da história. E ainda exibem uma química providencial a história. Mas também há espaço para outros grandes personagens roubarem a cena. Como os policiais civis, Hércules e Fernando. Ou então a participação do grande Luis Miranda em uma primeira aparição bastante marcante. Falando mais a respeito de Selton, seu carisma já é inequívoco. Mas se por um lado sua vertente cômica flua muito bem, é impossível não reparar que o ator está cada vez mais adquirindo cacoetes de personagens anteriores. A fala rápida, o humor ácido e o cinismo são partes características de quase todos os personagens criado por Selton, ultimamente. Vide o personagem na peça "O Zelador", do filme "O Cheiro do Ralo" e da série "O Sistema". Algo a se pensar, já que outros grandes da mesma geração já o fizeram e, ao que parecem, estão se perdendo cada vez mais.
Até o final da projeção o espectador está grudado na cadeira, pois seu ritmo frenético e suas interessantes situações são suficientemente agradáveis para que a fita flua muito bem. E fica também um destaque especial as falas, muito bem delineadas. Porém, apesar de toda diversão há diversas ressalvas. E como dito no começo do texto, há dois lados para analisar Meu Nome; um é pelo lado cinematográfico (que não deixa nada a desejar a produções norte-americanas atuais, pelo contrário, sua linguagem, estética e valores cinematográficos são bastante ricos) e outro pelo lado social. E é por esse lado que o filme perde muito de sua credibilidade como obra final.
Primeiramente, é impossível não notar semelhança em outro filme protagonizado por outro Johnnny; o Depp, em "Profissão de Risco". O filme de Ted Demme, de 2001, contava a história de George Jung, um traficante de drogas que vai crescendo até se tornar um dos principais elos de ligação Colômbia/EUA, na década de 70. Meu Nome se assemelha com Profissão de Risco não apenas pela premissa, mas também pelo ritmo, situações e estilo de direção adotados. Mas no filme nacional há um espaço muito maior para a comédia, o que se torna uma faca de dois gumes mais adiante. Já em Profissão nem tudo é clichê como em Meu Nome, o que se torna o grande diferencial dos dois exemplares. Há outro elemento importantíssimo: Johnny Depp cria um traficante também carismático, mas muito mais crível e tridimensional que o João Estrela de Selton Mello, que claramente está se divertindo demais no papel (o que é constatado ao saber da preparação dos dois atores: enquanto Selton criou totalmente os trejeitos de João Estrela, sem conhecê-lo muito antes das filmagens, Depp conviveu bastante com George Jung que o "aprovou" para o papel). Enquanto nos atos finais do filme americano seu ritmo torne-o mais sóbrio e realista, em Meu Nome há uma aura barra pesada muito polida; a cena em que há uma briga contra africanos é de um mau gosto ímpar. Preconceituosa e escapista. Reparem na trilha utilizada. Quase uma visão de americanos médios para com o Brasil.
Um dos maiores problemas de "Meu Nome Não é Johnny" é seu lado social. É fácil tanger um filme de sexo, drogas e rock and roll com uma mensagem pacífica, no Brasil, feita pela classe média e voltada para ela própria. A juíza absolve João Estrela de seus crimes e o faz pagar dois anos em um hospício. No final do filme há a mensagem dizendo que qualquer ser humano pode ser recuperado. A pergunta que fica é: mas se qualquer humano pode ser recuperado, e os diversos pobres, negros que estavam presos junto com João Estrela. Por que não lhes é garantido o mesmo direito de um julgamento decente e um perdão regenerativo? Pois essa mesma Justiça não vale para diferentes classes. É fácil regenerar um sujeito de classe média alta, com família estruturada e amigos playboys com dinheiro e apoio emocional. Mas jogar isso como filosofia é perigoso demais, já que o próprio tema do filme já é bastante inflado.
Na crítica especializada houve uma pequena divagação sugerindo que o "Meu Nome Não é Johnny" é uma resposta à "Tropa de Elite". Ou melhor, a resposta da classe média, acusada no filme de Padilha como patrocionadora do tráfico e muito responsável pela situação limite atual brasileita/carioca. Não há nada mais incoerente do que tal proposta. Na verdade pode até haver algumas semelhanças entre os dois filmes, mas não o vejo como uma resposta, de maneira alguma. Mesmo porque falta muito estrutura para "Meu Nome Não é Johnny" ser comparado à Tropa, e quiçá uma resposta. Meu Nome é um filme feito para entreter, direto da "indústria" do entretenimento que vive, e convive, muito com essa situação.
Mas repito, considero "Meu Nome Não é Johnny" um ótimo cinema, feito para divertir e pensar (mesmo que de tapa olhos). Mais uma ótima produção vindo de um cinema nacional crescente.
Mas se for para discutir algo, ou para lançar alguma resposta para Tropa, que seja entre a classe média em uma mesa da Daslu, pois pela visão unilateral e obtusa do filme, o Brasil é a Europa.
Lanço outra: "Ônibus 174" talvez seja uma resposta (sem querer) à "Meu Nome Não é Johnny".
Será que Justiça é válida para todos?

4 comentários:
Vi o filme ontem. Achei acima de minhas espectativas. Divertido, sim. Mas, não apenas isso, como você argumenta no texto.
Sob o foco social que você deu, embora seja possível fazer um paralelo de como a justiça trata um criminoso comum e um proveniente da classe média, acho que o filme não se propõe a isso. O filme enfoca somente o traficante/usuário de classe média, sim. Aquele que, supostamente, teve todas as oportunidades, mas, mesmo assim, resolveu agir errado. Por que isso ocorre? O filme, inicialmente, responde: omissão e uma educação tolerante demais. Por parte da família.
Então, nesse caso, a culpa estaria na esfera familiar. Falta de limites. Didaticamente, o filme mostra que a juíza tomou para si o papel dos pais. E obteve resultados satisfatórios (ao menos, no filme).
O outro problema, que o filme não toca, a criminalidade na miséria, não é um problema somente da esfera familiar. É um problema do estado. De omissão, também, mas não de tolerância. Pelo contrário.
Comparar as duas coisas é forçar um pouco a barra .
Assim como comparar o João com o George. O segundo ficou milionário, fomentou o consumo de cocaína nos EUA (ao menos, é o que diz o filme). Os filmes e o argumento são parecidos, mas as personagens, não.
No mais, concordo que o Selton é ótimo, mas anda se repetindo. E, por que ninguém fala da moça que fez a amiga presa? Ela está muito bem em todas as particípações!
Primeiro, obrigado pela visita, e comentário.
Concordo com a crítica do "anônimo" feita àcima. Porém o enfoque do diretor é muito esparso em relação a instituição familiar. E nem acho que este deveria discutir problemas sociais, como os carcerários e de Justiça. Porém se o filme se propõe a dar uma lição de moral, esta tal moral se torna dúbia.
E, sim, há uma forçação de barra em comparar os dois personagens; George Jung e João Estrela. Mas faço a comparação em relação os dois personagens, e não as personas. Tanto que cito as duas formas de interpretações. O quero chegar é: até onde foi se levado a sério o que estava sendo representado. O enfoque dos dois diretores é diferente. Mas fiz tal comparação pois na crítica especializada havia surgido a questão: seria "Meu Nome Não é Johnny" uma resposta à "Tropa de Elite"? Por esse ângulo a história muda de conjuntura.
Ainda assim, considero Meu Nome um ótimo cinema, porém um cinema escapista, também.
Ou talvez tenha entendido errado, e o diretor quis mostrar como a vida que João Estrela levou pode ser divertida, porém "letal".
O que nada impede de eu achar a cena da prisão uma brincadeira de gosto duvidoso e que tenha faltado um pouco mais de seriedade, para Meu Nome ter sido mais redondo.
Também achei o filme em si, bem acima de minhas expectativas, porém seu conteúdo muito história para gringo ver...
Desculpe a sinceridade, mas achei muito fracas suas críticas. Você analisa os filmes como se fossem feitos para criticar algo, alguém ou alguma coisa. Além de se incomodar com cenas que apenas retratam algum fato, por exemplo a cena dos africanos. Não se analisa um filme querendo mudar o roteiro e muito menos achando q ele é a resposta à outro filme. Estude mais meu rapaz. Abraços.
Obrigado pela sinceridade. E, principalmente, pela coragem, Sr(a). Anônimo!
Postar um comentário