Tenho a impressão que o filme "Paris, Te Amo" despertou uma paixão imediata sobre minha pessoa. Estava ansioso para conferir o plural relato dos mais de quinze diretores diferentes sobre a cidade da Luz. O receio vinha por parte desse tipo de empreitada cinematográfica. De tempos em tempos, vem um produtor, reúne diversos diretores renomados (e talentosos), na maioria das vezes, escolhe um tema e põe este na roda. O resultado, até onde eu sei, é sempre uma fita inconsistente. Ou melhor, irregular, o que talvez dê no mesmo.Não o caso de "Paris, Te Amo". É, sim, espantosamente regular; um filme bem amarrado, conciso, linearmente delicioso. O título do post não é apenas uma referência ao tema sugerido por tal, mas também do filme homônimo que passou-me pela cabeça quando as letras dos créditos subiam. "Simplesmente Amor" também são várias histórias que se entrelaçam formando um belo trabalho no qual sou suspeito para comentá-lo, já que sou assumidamente apaixonado.
"Paris, Te Amo" em sua proposta não é de celebrar o amor pela cidade, apenas. É mais que isso, é uma busca por visões multiétnicas sobre uma das capitais mais glamurosas do mundo. O amor pode estar na arte de se fazer cinema, por exemplo. Ou mais ainda, pela vida; a que mais acredito. Walter Salles filma brilhantemente, e faz um dos melhores curtas de todo o conjunto. Seu tema -não irei contar- dialoga com uma questão muito atual que me perseguiu por esses dias. Sua visão bateu com a minha para com uma das causas de certo problema. Não irei falar qual é, mas quando você conferir, saberá o que estou dizendo. Ou melhor, vou contar, mas farei no próximo parágrafo. Portanto pule-o.
A visão de Salles para com os imigrantes ilegais -na Europa- batem de frente com o que enxergo para com as empregadas domésticas em metrópoles pelo Brasil. Recentemente, Sirlei foi espancada por cinco jovens de classe média do Rio. Esta fora agredida em plena manhã ao esperar seu ônibus. Em post recente, disse que a culpa não é somente dos imbecis cariocas, mas de todos nós, que retiram Sirleis de suas casas, de seus convívios familiares, atravessando toda uma cidade apenas para organizar a política interna de nossas residências. Nós fazemos com que tais acordem às quatro/cinco da manhã, peguem ônibus desprotegidas, e sozinhas para baterem cartão em nossos lares. Me parece acontecer o mesmo com a personagem de Catalina Sandino Moreno, no curta de Salles. Tem de largar seu filho para cuidar dos outros. Imigrantes ilegais na Europa são nossas empregadas domésticas. Que tal?
O que mais impressiona é a qualidade nos curtas apresentados. Lembro-me de um ou dois, realmente, fracos, mas de resto, o pior resultado são visões razoavelmente boas, e na totalidade muito interessantes, quando não, excepcionais. Como o caso do casal africano, do homem no bar contando a vida de sua esposa, o que contém Natalie Portman e por aí vai. Se não viu ainda, veja, e espero que curta como curti!
Um outro caso que tem mais a ver com o título do que com o filme citado, é o outro longa que assisti no mesmo Espaço Unibanco, ontem: "A Vida Secreta das Palavras". Aliás, para quem não sabe, cinema às quintas de julho, à quatro (R$4,00!) reais cada no Espaço Unibanco! Imperdível! Ainda mais em época de Cinemas à dezenove, vinte reais. O duro é aguentar a antipatia das atendentes quando você pergunta o preço do ingresso. Parece que estão com raiva de cobrarem tão barato. Mas quem se importa? Com cinema por quatro reais, até o Rubens Ewald Filho podia ser o atendente.
O filme tem um charme próprio de trabalhos independentes que vão te conquistando através do desenvolvimento dos personagens. Particularmente adorei o cenário. Uma torre de petróleo em alto mar. A fita possui uma claustrofobia interessante e o convívio com os tripulantes é inevitável. E foi com essa premissa que me vi conquistado. Os diálogos e situações que o roteiro apresentam são ótimos e vai prendendo sua atenção para com os personagens tristes e interessantes.
Sarah Polley e Tim Robbins estão fabulosos. Há uma química incrível. A tensão sexual e social é iminente e os melhores diálogos provém de tal situação. São duas pessoas amarguradas e sofridas. Depois descobre-se que dividem muitas coisas além da dor psicológica, e por assim ser, há uma inversão de papéis genial na história.
O título é poético e remete bem a situação vivida na fita. Não sabia muito o que esperar de "A Vida Secreta das Palavras", ou melhor, não esperava mesmo muita coisa, até receber uma indicação de um amigo orkutiano. E, realmente, o filme é belíssimo, intenso, e, principalmente, muito triste. Mas também contém amor. E este, se não implícito, está nas ações de cada personagem. Seja na comida, na busca pelo prazer, no oceano, de pais e o amor em sua forma mais óbvia que movem os protagonistas.
Gostei demais dos dois trabalhos. Dois filmaços! Quero revê-los, principalmente por acabar de descobrir que a diretora de "A Vida Secreta das Palavras", Isabel Coixet, dirige um segmento em "Paris, Te Amo". Se chama `Bastille´. Por nome não vou lembrar-me, mesmo, portanto mais uma desculpa para revisitá-los em breve...

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