terça-feira, 3 de julho de 2007

paz sem voz, não é paz, é medo

Vou entrar em um assunto já muito debatido em nosso país. Mas vou -tentar- fazê-lo por outro prisma. Cinco jovens de classe média espancaram uma doméstica em pleno dia em um Rio de Janeiro dividido. Comecemos pelo óbvio; o saldo da tragédia. A imprensa trata o assunto com ar de revolta. Mas de uma revolta que, ao meu ver, é falsificada por uma visão elitista do ocorrido. Se por um lado é claramente deplorável o comportamento dos imbecis, tais órgãos ainda pontuam o assunto destacando sempre "um grupo de jovens" que atacou a moça. E é claro que a palavra delinqüente, marginal só não é posta em prática pela razão social estabelecida pelos tais "jovens cariocas".

Ou então imaginemos o inverso da situação atual. Se uma menina de classe média, desprotegida, esperando seu ônibus para a faculdade fosse abordada por cinco jovens, da periferia, e tivesse sido espancada por tais. Não é muito difícil de imaginar o que seria repercutido através do crime. Primeiro que a nomenclatura para com os agressores não seria, de maneira alguma, um grupo de jovens -mesmo que o fossem-. E mais ainda, imaginem então o discurso dos pais da vítima! Oras! Um pai de família de classe média vendo sua filha, bela, loira, penteada, bem alimentada, ser agredida por cinco "animais"? Tenho certeza que esse mesmo pai não diria "Não se pode prender tais garotos. São apenas crianças.". Haja visto o que houve com os jovens que assassinaram o garoto Hélio dos Santos (arrastado até a morte...).

Mas no que quero, verdadeiramente, entrar em discussão é algo que vem me incomodando em toda essa situação (não só localizada que fora a agressão dos imbecis à doméstica), que é a perda de noção democrática cada vez mais em larga escala. A impunidade é óbvia em todo o país, e o assunto é um dos mais criticados e discutidos por aqui. Mas isso já se diluiu em todas as camadas propostas.

Aconteceu algo comigo esses dias que posso dividir aqui. Fui abordado por duas moças em frente a Oca que tentavam vender uma falsa promoção de certas revistas. Ou melhor, que fique claro, das revistas distribuídas pela Editora Peixes, através do cartão VISA e VISA Eléctron. Caí, burramente, de gaiato no papo das moças, apesar de desconfiar muito do que elas diziam. Desconfiei tanto que voltei atrás, peguei o contrato e a fiz rasgar tais papéis, e disse, por fim, não querer mais "participar da promoção".

Resultado: na semana seguinte, em meu cartão de crédito havia sido debitado R$120,00 referente a assinatura das tais revistas da Editora Peixes. Por que digo isso? Por tomar como exemplo um fato isolado e colocar em um contexto mais geral que é a impunidade em nosso país. A culpa é de quem? Das moças que foram até o lixo e recolheram os pedaços do contrato e o reconstruíram, debitando em minha conta sem devida autorização (muito pelo contrário)? Ou então do cartão de crédito VISA que permite tais serviços em seu nome? Ou em outra hipótese, da Editora Peixes que permite tais serviços terceirizados? Liguei, no Real VISA, e na Editora Peixes. As duas instituições alegaram a mesma coisa. O prazo para a devolução/cancelamento da assinatura é de dois meses! Resumindo: são coniventes com o trabalho do outro. A corrupção não começa pela política, mas por quem os elegem. E a impunidade está arraigada em todos os setores comerciais e sociais em nossa vida, infelizmente. Desde o "gato" para a televisão à cabo a desvios de dinheiro em paraísos fiscais. O que um se justifica pelo outro, mas de qualquer forma os exemplos são corriqueiros em nossa convivência. Tudo começou por duas pessoas que precisam do dinheiro (se não, não estariam fazendo tal tipo de serviço, imagino), mas que de qualquer forma agiram ilegal e incoerentemente, no mínimo. Mas há de se tomar devidas medidas para que a impunidade não seja ainda mais praticada.

Voltando ao foco. Deixar esses imbecis livres é um atestado de que seus atos são apenas desvios feitos por drogas ou bebidas alcoólicas. Enquanto isso, esses jovens utilizam o mesmo cartão de crédito para comprarem de tudo, do status à cocaína, em uma compulsão personificada por um mesmo objeto que serve como fator social e formação de uma carreira. E ao lamberem tudo depois, a situação volta ao normal.
Veja bem, não estou colocando a culpa nas drogas, mesmo porque não é qualquer um que ao beber irá sair espancando mulheres por aí. Ou então quem cheira que, do nada, torna-se-há facista e imbecil.

E mais ainda, a culpa não é apenas dos jovens que espancaram Sirlei, mas da condição social que está inserida. Esquecemos, por um momento, ao sermos bombardeados por notícias com cunho sensacionalista que atrás da irreparável ação que foi agredir uma mulher, que ela está em uma posição social mantida por nós, de uma classe média perversa. Sirlei estava abandona em um ponto de ônibus às cinco da manhã esperando seu ônibus. Por quê? Ou melhor, para que? Pois nossas casas necessitam desse tipo de trabalho. Somos, ainda, senhores de engenho confeccionando uma mão-de-obra barata e destratada.

Ou então podemos reclamar da falta de segurança em nossas metrópoles. Mas o que falta para efetuar essa conscientização de classe e segurança? Mais policias às ruas? Direitos de porte de arma? Lembremos que muitos dos que acusam os imbecis pelo ataque, são os que votaram em NÃO ao desarmamento. A solução é pela lei da bala? Não acredito que seja. Policias não devem possuir mais armas, mas sim valores morais e sociais. Se um bombeiro salva uma mulher de um assalto, isso é comum, mas se um policial faz o mesmo, este é condecorado e vira símbolo de uma sociedade justa. Os valores estão invertidos, e a desconfiança parte de cima para baixo. Há de se concentrar na educação, nos valores, no respeito de classe, e moral.

O que me remete a pessoa de Renato Moreira Carvalho, pai de Sirlei, absolutamente consciente e inteligente em suas falas. Em entrevista concedida ao jornal Estado de São Paulo, disse, dentre outras coisas:

"
Eles (agressores) têm tudo: família, estudo, estrutura.

No fim, não têm nada. Não pude dar os brinquedos que meus filhos pediram, mas dei valores.

"Esses rapazes estão longe de serem crianças. Esse pai devia dizer: 'Meu filho é um homem.
Tem 20 anos, errou, pagará pelo que fez'. Não queria encontrar com eles [pai dos imbecis]. Mas, se tivesse de falar algo, diria para que deixassem os filhos assumir os próprios erros. Não acobertem.
Se não deram responsabilidades a eles quando eram criança, dêem agora. Façam deles homens. Que eles possam tirar desse episódio alguma lição. E que não seja a da impunidade."


Renato é pedreiro e pelo cargo que executa convive muito com a classe média. Assim como sua filha, está sempre presente em "zonas nobres" do Rio de Janeiro em um trabalho assalariado que constrói, mas não desfruta. Passam e lavam roupa, fazem comida, constróem paredes, erguem muros (para segurança de classe), pintam seus apartamentos, lavam o chão, o banheiro, montam o banheiro. São dois exemplos dos agricultores escravos que plantam, mas que nunca irão colher. Tiramos essas pessoas de suas famílias, tomamos todo seu tempo útil doméstico para que dediquem esse hiato em nossas casas, omitindo que por trás de um trabalho, há uma vida, tão complexa e singular.

O problema está enraizado nesse tipo de juventude que não possui valor algum de democracia, e por isso representam o que há de mais facista em uma sociedade autônoma da impunidade. É praticada a anti-democracia de valores, invertendo muitas vezes os papéis dos cúmplices e acusados. Atrás das grades está a classe média, se defendendo de algo que a própria constrói em seu dia-a-dia.

A impunidade, nesse caso, pode se apresentar de diversas maneiras. A mais dolorida será a do não aproveitamento dessa grande lição de moral (e ética) provindo de Renato e sua classe. Ouvir o que este tem a dizer é um atestado de óbito a classe média elitista e separatista, amparada por órgãos de imprensa que fazem valer seus poderes políticos como qualquer revista que registre o fato, mas que o veja de sua maneira.

É só compararmos os discursos dos dois pais para que enxergarmos qual contém uma maior sensatez em suas falas. Muitas vezes o que é dito é tão -ou mais- violento quanto a agressão física proporcionada por cinco imbecis cariocas.

Justiça não começa atrás das grades, mas frente à moral de cada indivíduo.


" Se a gente falasse menos
talvez compreendesse mais
Teatro, boate, cinema
qualquer prazer não satisfaz

Palavra figura de espanto

quanto na terra tento descansar,
mas o tudo que se tem
Não representa nada

Tá na cara

que o jovem tem seu automóvel
E tudo que se tem
Não representa tudo

O puro conteúdo é consideração
Não goza de consideração
"

[Luiz Melodia]

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